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Sexta-feira, Fevereiro 27

 

Essas poesias recebi há algum tempo de um amigo muito querido o Clau. Saudade de vc!

Trevo de quatro folhas

Como não perceber teus olhos fixos desvelando a paisagem
Quando o verso cai na palma da mão à procura das últimas palavras
O que me importa, se não me tocarás nada além do coração
Com sorriso e flechas vermelhas e a alma desfiando kriptonita

Como não perceber teus olhos oceânicos
Quando os barcos de jornal ancoram desenhando mais de um cais
O que me importa, se o privilégio de uma tarde relata sua presença
Com os intervalos que acordam todos os aniversários de forma incômoda

Como não perceber teus olhos nesses haicais
Quando a folha seca espera o vento silenciosamente
O que me importa, se todos os azuis que vejo em seu vestido são pássaros
Com rumo certo ao sul, alçando vôo, do outro lado, posso saber

Como não perceber teus olhos atrás do muro
Quando o sol me inebriada de sorrisos e almoço teus braços
O que me importa esse avesso todo, confesso não pareço certo
Com todos esses versos cegos e tortos que se derramam

Como não perceber teus olhos em meus olhos claros
Quando meus átomos despedaçados dissolvem-se como sal sobre as rochas
O que me importa, se esse mosaico híbrido não denota cores
Com as asas despedaçadas de meu anjo gris

 
Último bilhete
 
A página pede teu nome
Meu tudo costurado nas margens desertas
A casca inútil das palavras deflora
Para não perder o vício na desordem do dia
 
Agora não sou só
Dissolvo-me na paisagem inalienável
No calcário descoberto no asfalto
E o vagão toma o trilho em tua direção
 
Mais de uma vez incomunicável
Em leda, tal nas asas das rosas
Em cada passo, perfume, sabor
 
E que nunca lhe falte
Tantos tons nos olhos
Para que não me falte
Tanta alegria nas mãos
 


Coisas que você pode dizer só de olhar pra ela
 
Teu colar, pouso azul sobre teu vestido blue
Corre atrás, meu sorriso
Entre as colunas das palmeiras
Entre a colina e a vida inteira

Tanto passado, exausto, exatamente
Aquela cor toda de açaí em teus olhos
Toda aquela lua nova exposta
- Abre essa janela! 
Ou isto ou outra coisa qualquer
Deixa-me carpir teu quintal

E tal não me fosse o tal destino
Com sorte poderia ouvir tua voz
 
A cal da casa quase sem cor
Quase não me encontra lá
Deixa que eu te conte
Vem ouvir o mar na concha
 
Que em suas asas de papel seja escrito
Uma canção precisa para seu violão
Em todas as cores que se possa
De sabor e predileção completos
 
Uma boa história
Descrita nas linhas da palma da mão
 
Quanto silêncio
O quanto preciso para ouvir teu nome
Que em todos os rios margeiam
Que em todas as nuvens se desenha
Em um gesto magenta
Meu gesto voa
Volto a ouvir musica Barroca

(Claudemir Ferreira)
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Pessoal fui à Oca do Parque Ibirapuera ver a exposição do Picasso! 
PICASSO NA OCA!!!!! TUDO DE BOM!
RESOLVI DEIXAR UMA AMOSTRINHA PARA VCS!



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Segunda-feira, Fevereiro 23

 
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AS RAZÕES QUE O AMOR DESCONHECE 

Você é inteligente. Lê livros, revistas, jornais. Gosta dos 
filmes do Woody Allen, do Hal Hartley e do Tarantino, mas 
sabe que uma boa comédia romântica também tem o seu 
valor. É bonita. Seu cabelo nasceu para ser sacudido num 
comercial de xampu e seu corpo tem todas as curvas no 
lugar. Independente, emprego fixo, bom saldo no banco. 

Gosta de viajar, de música, tem loucura por computador 
e seu fettuccine ao pesto é imbatível. Você tem bom 
humor, não pega no pé de ninguém e adora sexo. Com 
um currículo desses, criatura, por que diabo está sem 
namorado? 

Ah, o amor, essa raposa. Quem dera o amor não fosse 
um sentimento, mas uma equação matemática: eu linda 
+ você inteligente = 2 apaixonados. Não funciona assim. 

Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, 
caso contrário os honestos, simpáticos e não-fumantes 
teriam uma fila de pretendentes batendo à porta. 

O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. 
O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, 
por conjunção estelar. Costuma ser despertado mais pelas 
flechas do Cupido do que por uma ficha limpa. 

Você ama aquele cafajeste. Ele diz que vai ligar e não liga, 
ele veste o primeiro trapo que encontra no armário, ele adora 
o Planet Hemp, que você não suporta. Ele não emplaca uma 
semana nos empregos, está sempre duro e é meio galinha. 
Ele não tem a menor vocação para príncipe encantado, 
mas você não consegue despachá-lo. Quando a mão dele 
toca na sua nuca, você derrete feito manteiga. Ele toca 
gaita de boca, ele adora animais, ele escreve poemas. 
Por que você ama esse cara? Não pergunte pra mim. 

Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de 
cartas que ela não respondeu, você deu flores que ela 
deixou murchar, você levou-a para conhecer sua mãe 
e ela foi de blusa transparente. Você gosta de rock e 
ela de MPB, você gosta de praia e ela tem alergia a 
sol, você abomina o Natal e ela detesta o Ano-Novo, 
nem no ódio vocês combinam. Então? Então que ela 
tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo 
dela é mais viciante que LSD, você adora brigar com 
ela e ela adora implicar com você. Isso tem nome. 

Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, 
veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são referências, 
só. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que 
o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca. Ama-se 
pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, 
pela fragilidade que se revela quando menos se espera. 
Amar não requer conhecimento prévio nem consulta 
ao SPC. Ama-se justamente pelo o que o amor tem 
de indefinível. Honestos existem aos milhares, 
generosos tem às pencas, bons motoristas e bons 
pais de família, tá assim, ó. Mas só o seu amor 
consegue ser do jeito que ele é. 

Martha Medeiros 
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Sábado, Fevereiro 21

 
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Depois de um certo tempo, resolvi falar, com vc que tem navegado por aqui. 
Esta é uma tentativa de passar para as pessoas, sentimentos de autores de livros que ficam na estante
enquanto teclamos e clicamos alucinados. 
A poesia sempre me fez navegar de uma forma diferente por mundos, sensações e simbologias que de 
certa forma sinto muita saudade.
Bom além disso quem gosta de poesia, tem que visitar a página do programa Provocações, 
com o Antonio Abujamra, exibido pela tv Cultura.
Essa poesia vem de lá:

SÃO PAULO, BALADA DO BEM QUERER
(João Abujamra)

Acorda, acorda minha amiga!
Hoje, tu aniversarias e aqui estou para dizer o quanto te amo.
Valeram os sacrifícios que a juventude de 32 fez por ti. 
Lembras-te: Martins, Miragaia, Dráuzio e Camargo, imolados no primeiro batalhão para redimir a honra ultrajada de São Paulo. O MMDC!

Lembras-te de Ibrahim Nobre, o tribuno da revolução? E de Guilherme de Almeida , o príncipe dos poetas, que tremia em seu orgulho com
versos que cantavam a epopéia dos paulistas?

Amo-te, minha São Paulo.
Amo-te tanto nos teus sonhos de grandeza quanto na generosidade dos teus feitos.

Deixa também que te ame no Pátio do Colégio onde foste embalada pelas mãos piedosas de José de Anchieta. 
Quero amar-te pela evocação de Bartira, primeira mãe paulista.

Amo-te ainda nos passos lendários de Fernão Dias e Borba Gato, nas salas da Academia de São Francisco por cujas arcadas passaram 
Fagundes Varella, Álvares de Azevedo e Castro Alves.

Ah! Como te amo minha São Paulo, nos sonhos de tua juventude e na bravura dos que dormem no teu solo. 
Amo-te enfim, no teu brasão altivo: Non Ducor, Duco!
Não sou conduzido, conduzo.

Parabéns minha cidade!
450 anos.
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Meditação
Tom Jobim
 

Quem acreditou, 
No amor, no sorriso, na flor, 
Entao sonhou,sonhou...
E perdeu a paz, 
O amor, o sorriso e a flor, 
Se transformam depressa demais
Quem, no coração,
Abrigou a tristeza de ver,
Tudo isto se perder
E, na solidao, 
Procurou um caminho e seguiu, 
Já descrente de um dia feliz
Quem chorou, chorou, 
E tanto que seu pranto já secou
Quem depois voltou, 
Ao amor, ao sorriso e à flor, 
Entao tudo encontrou
Pois, a própria dor, 
Revelou o caminho do amor, 
E a tristeza acabou.
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Tarde em Itapoã
Tom Jobim

Um velho calção de banho / o dia prá vadiar
um mar que não tem tamanho / um arco-íris no ar.
Depois da praça Caymi / sentir preguiça no corpo
e numa esteira de vime / beber uma água de côco.

É bom... passar uma tarde em Itapoã / ao sol que arde em Itapoã
ouvir o mar de Itapoã / falar de amor em Itapoã. 

Enquanto o mar inaugura / um verde novinho em folha
argumentar com doçura / com uma cachaça de rolha.
E com o olhar esquecido / no encontro de céu e mar
bem devagar e sentindo / a terra toda rodar.

Depois sentir o arrepio / do vento que a noite traz
e o diz-que-diz macio / que brota dos coqueirais.
E nos espaços serenos / sem ontem nem amanhã
dormir nos braços morenos / da lua de Itapoã.

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OLHOS DE MUSGO
  Mauro Salles

Por trás de lentes  
amarelas  
olhos de musgo  
fazem perguntas  
iluminam o sorriso  
a boca de promessas  
as frases presumidas  
e suas cargas  
de adiamentos  
dúvidas  
mistérios
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Domingo, Fevereiro 15

 

O POR DO SOL É DE QUEM OLHA!!!



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Sábado, Fevereiro 14

 

Augusto de Campos 

Diálogo a Dois
 
"A Angústia, Augusto, esse leão de areia"
Décio Pignatari
   
A Angústia, Augusto, esse leão de areia  
Que se abebera em tuas mãos de tuas mãos  
E que desdenha a fronte que lhe ofertas  
(Em tuas mãos de tuas mãos por tuas mãos)  
E há de chegar paciente ao nervo dos teus olhos,  
É o Morto que se fecha em tua pele?  
O Expulso do teu corpo no teu corpo?  
A Pedra que se rompe dos teus pulsos?  
A Areia areia apenas mais o vento?  

A Angústia, Pignatari, Oleiro de Ouro,  
Esse leão de areia digo este leão  
(Ah! O longo olhar sereno em que nos empenhamos,  
Que é como se eu me estrangulasse com os olhos)  
De sangue:  
Eu mesmo, além do espelho.  

 
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DÚVIDA
(Arnaldo Antunes)

  Estou cego a todas as músicas,
  Não ouvi mais o cantar da musa.
  A dúvida cobriu a minha vida
  Como o peito que me cobre a blusa.
  Já a mim nenhuma cena soa
  Nem o Céu se me desabotoa.
  A dúvida cobriu a minha vida
  Como a língua cobre de saliva
  Cada dente que sai da gengiva.
  A dúvida cobriu a minha vida
  Como o sangue cobre a carne crua,
  Como a pele cobre a carne viva,
  Como a roupa cobre a pele nua.
  Estou cego a todas as músicas.
  E se eu canto é como um som que sua.
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GRÁVIDA
(Marina Lima e Arnaldo Antunes)

Eu tô grávida 
Grávida de um beija-flor 
Grávida de terra 
De um liquidificador 
E vou parir 
Um terremoto, uma bomba, uma cor 
Uma locomotiva a vapor 
Um corredor 
Eu tô grávida 
Esperando um avião 
Cada vez mais grávida 
Estou grávida de chão 
E vou parir 
Sobre a cidade 
Quando a noite contrair 
E quando o sol dilatar 
Dar à luz 
Eu tô grávida 
De uma nota musical 
De um automóvel 
De uma árvore de Natal 
E vou parir 
Uma montanha, um cordão umbilical, um anticoncepcional 
Um cartão postal 
Eu tô grávida 
Esperando um furacão, um fio de cabelo, uma bolha de sabão 
E vou parir 
Sobre a cidade 
Quando a noite contrair 
E quando o sol dilatar 
Vou dar a luz

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Sexta-feira, Fevereiro 13

 

JUAN MIRÓ



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CÂNDIDO PORTINARI

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PAUL KLEE


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"Se, depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
Não há nada mais simples.
Tem só duas datas: a da minha nascença e a da minha morte.
Entre uma e outra todos os dias são meus." 

Alberto Caeiro


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Quinta-feira, Fevereiro 12

 

Ricardo Reis 

Segue o teu destino,
Rega as tuas plantas,
Ama as tuas rosas.
O resto é a sombra
De árvores alheias. 

A realidade
Sempre é mais ou menos
Do que nós queremos.
Só nós somos sempre
Iguais a nós-próprios. 

Suave é viver só.
Grande e nobre é sempre
Viver simplesmente.
Deixa a dor nas aras
Como ex-voto aos deuses. 

Vê de longe a vida.
Nunca a interrogues.
Ela nada pode
Dizer-te. A resposta
Está além dos deuses. 

Mas serenamente
Imita o Olimpo
No teu coração.
Os deuses são deuses
Porque não se pensam. 


Ricardo Reis, 1-7-1916 
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Álvaro de Campos


Opiário

(3-1914)

Ao Senhor Mário de Sá Carneiro

 

É antes do ópio que a minh'alma é doente.

Sentir a vida convalesce e estiola

E eu vou buscar ao ópio que consola

Um oriente ao oriente do Oriente.

 

Esta vida de bordo há-de matar-me.

São dias só de febre na cabeça

E, por mais que procure até que adoeça,

Já não encontro a mola pra adaptar-me.

 

Em paradoxo e incompetência astral

Eu vivo a vincos de ouro a minha vida,

Onda onde o pundonor é uma descida

E os próprios gozos gânglios do meu mal.

 

É por um mecanismo de desastres,

Uma engrenagem com volantes falsos,

Que passo entre visões de cadafalsos

Num jardim onde há flôres no ar, sem hastes.

 

Vou cambaleando através do lavor

Duma vida-interior de renda e laca.

Tenho a impressão de ter em casa a faca

Com que foi degolado o Precursor.

 

Ando expiando um crime numa mala,

Que um avô meu cometeu por requinte.

Tenho os nervos na fôrca, vinte a vinte,

E caí no ópio como numa vala.

 

Ao toque adormecido da morfina

Perco-me em transparências latejantes

E numa noite cheia de brilhantes

Ergue-se a lua cono a minha Sina.

 

Eu que fui sempre um mau estudante, agora

Não faço mais que ver o navio ir

Pelo canal do Suez a conduzir

A minha vida, cânfora na aurora.

 

Perdi os dias que já aproveitara.

Trabalhei para Ter só o cansaço

Que é hoje em mim uma espécie de braço

Que ao meu pescoço me sufoca e ampara.

 

E fui criança como tôda a gente.

Nasci numa província portuguêsa

E tenho conhecido gente inglêsa

Que diz que eu sei inglês perfeitamente.

 

Gostava de ter poemas e novelas

Publicadas pro Plon e no Mercure,

Mas é impossível que esta vida dure,

Se nesta viagem nem houve procelas!

 

A vida a bordo é uma coisa triste,

Embora a gente se divirta às vêzes

Falo com alemães, suecos e inglêses

E a minha mágoa de viver persiste.

 

Eu acho que não vale a pena Ter

Ido ao Oriente e visto a Índia e a China.

A terra é semelhante e pequenina

E há só uma maneira de viver.

 

Por isso eu tomo ópio. É um remédio.

Sou um convalescente do Momento.

Moro no rés-do-chão do pensamento

E ver passar a Vida faz-me tédio.

 

Fumo. Canso. Ah uma terra aonde, enfim,

Muito a leste não fôsse o oeste já!

Pra que fui visitar a Índia que há

Se não há Índia senão a alma em mim?

 

Sou desgraçado por meu morgadio.

Os ciganos roubaram minha Sorte.

Talvez nem mesmo encontre ao pé da morte

Um lugar que ma abrigue do meu frio.

 

Eu fingi que estudei engenharia.

Vivi na Escócia. Visitei a Irlanda.

Meu coração é uma avòzinha que anda

Pedindo esmola às portas da Alegria.

 

Não chegues a Port-Said, navio de ferro!

Volta à direita, nem eu sei para onde.

Passo os dias no smoking-room com o conde -

Um escroc francês, conde de fim de entêrro.

 

Volto à Europa descontente, e em sortes

De vir a ser um poeta sonambólico.

Eu sou monárquico mas não católico

E gostava de ser as coisas fortes.

 

Gostava de ter crenças e dinheiro,

Ser vária gente insípida que vi.

Hoje, afinal, não sou senão, aqui,

Num navio qualquer um passageiro.

 

Não tenho personalidade alguma.

É mais notado que eu êsse criado

De bordo que tem um belo modo alçado

De lord escocês há dias em jejum.

 

Não posso estar em parte alguma. A minha

Pátria é onde não estou. Sou doente e fraco.

O comissário de bordo é velhaco

Viu-me co'a sueca... e o resto êle adivinha.

 

Um dia faço escândalo cá a bordo,

Só para dar que falar de mim aos mais.

Não posso com a vida, e acho fatais

As iras com que às vezes me desbordo.

 

Levo o dia a fumar, a beber coisas,

Drogas americanas que entontecem,

E eu já tão bêbado sem nada! Dessem

Melhor cérebrop aos meus nervos como rosas.

 

Escrevo estas linhas. Parece impossível

Que mesmo ao ter talento eu mal o sinto!

O fato é que esta vida é uma quinta

Onde se aborrece uma alma sensível.

 

Os inglêses são feitos pra existir.

Não há gente como esta pra estar feita

Com a Tranquilidade. A gente deita

Um vintém e sai um dêles a sorrir.

 

Pertenço a um gênero de portuguêses

Que depois de estar a Índia descoberta

Ficaram sem trabalho. A morte é certa.

Tenho pensado nisto muitas vêzes.

 

Leve o diabo a vida e a gente tê-la!

Nem leio o livro à minha cabeceira.

Enoja-me o Oriente. É uma esteira

Que a gente enrola e deixa de ser bela.

 

Caio no ópio por fôrça. Lá querer

Que eu leve a limpo uma vida destas

Não se pode exigir. Almas honestas

Com horas pra dormir e pra comer.

 

Que um raio as parta! E isto afinal é inveja.

Porque êstes nervos são a minha morte.

Não haver um navio que me transporte

Para onde eu nada queira que o não veja!

 

Ora! Eu cansava-me do mesmo modo.

Qu'ria outro ópio mais forte pra ir de ali

Para sonhos que dessem cabo de mim

E opregassem comigo nalgum lôdo.

 

Febre! Se isto que tenho não é febre,

Não sei como é que se tem febre e sente.

O fato essencial é que estou doente.

Está corrida, amigos, esta lebre.

 

Veio a noite. Tocou já a primeira

Corneta, pra vestir para o jantar.

Vida social por cima! Isso! É marchar

Até que a gente saia pla coleira!

 

Porque isto acaba mal e há de haver

(Olá!) sangue e um revólver lá pró fim

Dêste desassossego que há em mim

E não há forma de se resolver.

 

E quem me olhar, há de me achar banal,

A mim e à minha vida... Ora! um rapaz...

O meu próprio mocóculo me faz

Pertencer a um tipo universal.

 

Ah quanta alma viverá, que ande metida

Assim como eu na Linha, e como eu mística!

Quantos sob a casaca característica

Não terão como eu o horror à vida?

 

Se ao menos eu por fora fôsse tão

Interessante como sou por dentro!

Vou no Maelstrom, cada vez mais pró centro.

Não fazer nada é a minha perdição.

 

Um inútil. Mas é tão justo sê-lo!

Pudesse a gente desprezar os outros

E, ainda que co'os cotovelos rotos,

Ser herói, doido, amaldiçoado ou velo!

 

Tenho vontade de levar as mãos

À bôca e morder nelas fundo e a mal.

Era uma ocupação original

E distraía os outros, os tais sãos.

 

O absurdo, como uma flôr da tal Índia

Que não vim encontrar na Índia, nasce

No meu cérebro farto de cansar-se.

A minha vida mude-a Deus ou finde-a...

 

Deixe-me estar aqui, nesta cadeira,

Até virem meter-me no caixão.

Nasci pra mandarim de condição,

Mas falta-me o sossêgo, o chá e as esteira.

 

Ah que bom que era ir daqui de caída

Prá cova por uma alçapão de estouro!

A vida sabe-me a tabaco louro.

Nunca fiz mais do que fumar a vida.

 

E afinal o que quero é fé, é calma,

E não ter estas sensações confusas.

Deus que acabe com isto! Abra as eclusas -

E basta de comédias na minh'alma!

 

No Canal do Suez, a bordo
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Quarta-feira, Fevereiro 11

 
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Puedo escribir los versos más tristes esta noche. 
Escribir, por ejemplo: "La noche está estrellada, 
y tiritan, azules, los astros a lo lejos". 
El viento de la noche gira en el cielo y canta. 
Puedo escribir los versos más tristes esta noche. 
Yo la quise, a veces ella también me quiso. 
En las noches como esta la tuve entre mis brazos. 
La besé tantas veces bajo el cielo infinito. 
Ella me quiso, a veces yo también la quería; 
cómo no haber amado sus grandes ojos fijos. 
Puedo escribir los versos más tristes esta noche. 
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido. 
Oír la noche inmensa, más inmensa sin ella, 
y el verso cae al alma como el pasto al rocío. 
Qué importa que mi amor no pudiera guardarla; 
la noche está estrellada, y ella no está conmigo. 
Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos. 
Mi alma no se contenta con haberla perdido. 
Como para acercarla mi mirada la busca. 
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo. 
La misma noche que hace blanquear los mismos árboles, 
nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos. 
Ya no la quiero, es cierto; pero cuánto la quise. 
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído. 
De otro. Será de otro. Como antes de mis besos. 
Su voz, su cuerpo claro, sus ojos infinitos. 
Ya no la quiero, es cierto; pero tal vez la quiero; 
es tan corto el amor y es tan largo el olvido. 
Porque en noches como esta la tuve entre mis brazos, 
mi alma no se contenta con haberla perdido. 
Aunque éste sea el último dolor que ella me causa, 
y éstos sean los últimos versos que le escribo.

(Pablo Neruda/ Poema 20)


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Es la mañana llena de tempestad

en el corazón del verano.


Como pañuelos blancos de adiós viajan las nubes,

el viento las sacude con sus viajeras manos.
 

Innumerable corazón del viento

latiendo sobre nuestro silencio enamorado.
 

Zumbando entre los árboles, orquestal y divino,

como una lengua llena de guerras y de cantos.
 

Viento que lleva en rápido robo la hojarasca

y desvía las flechas latientes de los pájaros.
 

Viento que la derriba en ola sin espuma

y sustancia sin peso, y fuegos inclinado.
 

Se rompe y se sumerge su volumen de besos

combatido en la puerta del viento del verano.

(PABLO NERUDA)
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Segunda-feira, Fevereiro 9

 

HOJE ACORDEI COM O CORAÇÃO BUARQUIANDO...
QUIS DIVIDIR ISSO COM VOCÊS!
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JOÃO E MARIA
(Chico Buarque)

Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões, os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque e ensaiava o rock para as matinês
Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei a gente era obrigada a ser feliz
E você era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país
Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião, o seu bicho preferido
Vem, me dê a mão, a gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido
Agora era fatal que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá desse quintal era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar

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IRACEMA VOOU
(Chico Buarque)

Iracema voou
Para a América
Leva roupa de lã
E anda lépida
Vê um filme de quando em vez
Não domina o idioma inglês
Lava chão numa casa de chá
Tem saído ao luar
Com um mímico
Ambiciona estudar
Canto lírico
Não dá mole pra polícia
Se puder, vai ficando por lá
Tem saudade do Ceará
Mas não muita
Uns dias, afoita
Me liga a cobrar

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Eu te amo
Chico Buarque

Ah, se já perdemos a noção da hora 
Se juntos já jogamos tudo fora 
Me conta agora como hei de partir 

Se, ao te conhecer
Dei pra sonhar, fiz tantos desvarios 
Rompi com o mundo, queimei meus navios 
Me diz pra onde é que inda posso ir 

Se nós nas travessuras das noites eternas 
Já confundimos tanto as nossas pernas 
Diz com que pernas eu devo seguir 

Se entornaste a nossa sorte pelo chão 
Se na bagunça do teu coração 
Meu sangue errou de veia e se perdeu 

Como, se na desordem do armário embutido 
Meu paletó enlaça o teu vestido 
E o meu sapato inda pisa no teu 

Como, se nos amamos feito dois pagãos 
Teus seios inda estão nas minhas mãos 
Me explica com que cara eu vou sair 

Não, acho que estás te fazendo de tonta 
Te dei meus olhos pra tomares conta 
Agora conta como hei de partir.

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Quinta-feira, Fevereiro 5

 

 Gilberto Gil - Pela Internet  

Criar meu web site 
Fazer minha home-page 
Com quantos gigabytes 
Se faz uma jangada 
Um barco que veleje 

Que veleje nesse infomar 
Que aproveite a vazante da infomaré 
Que leve um oriki do meu velho orixá 
Ao porto de um disquete de um micro em Taipé 

Um barco que veleje nesse infomar 
Que aproveite a vazante da infomaré 
Que leve meu e-mail até Calcutá 
Depois de um hot-link 
Num site de Helsinque 
Para abastecer 

Eu quero entrar na rede 
Promover um debate 
Juntar via Internet 
Um grupo de tietes de Connecticut 

De Connecticut acessar 
O chefe da Macmilícia de Milão 
Um hacker mafioso acaba de soltar 
Um vírus pra atacar programas no Japão 

Eu quero entrar na rede pra contactar 
Os lares do Nepal, os bares do Gabão 
Que o chefe da polícia carioca avisa pelo celular 
Que lá na praça Onze tem um videopôquer para se jogar 
 
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AH! OS RELÓGIOS

Amigos, não consultem os relógios
quando um dia eu me for de vossas vidas
em seus fúteis problemas tão perdidas
que até parecem mais uns necrológios...

Porque o tempo é uma invenção da morte:
não o conhece a vida - a verdadeira -
em que basta um momento de poesia
para nos dar a eternidade inteira.

Inteira, sim, porque essa vida eterna
somente por si mesma é dividida:
não cabe, a cada qual, uma porção.

E os Anjos entreolham-se espantados
quando alguém - ao voltar a si da vida -
acaso lhes indaga que horas são...

Mario Quintana
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D.
"Amar: Fechei os olhos para não te ver e a minha boca para não dizer... 
E dos meus olhos fechados desceram lágrimas que não enxuguei, 
e da minha boca fechada nasceram sussurros e palavras mudas que te dediquei....
O amor é quando a gente mora um no outro." - MÁRIO QUINTANA 

 

 
   
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