Eclipsis Litteris
 

 
 
Poéticas 
e 
Visuais
 
 
   
  Parla!:

Quarta-feira, Março 31

 


Esse é o trabalho do Basquiat! Um discípulo de Andy Warrol e a Pop Art.
Fala se não é muito louco!
Parla!:
 

Essa é uma mostra do trabalho do Botero.
Esse pintor é muito legal! Faz a gente se sentir 
magriiiiiinha!


Parla!:
 


Como tem gente boa para
criar nesse nosso país! Lindas letras!
Dessa vez vamos de Djavan!

CURUMIM
Djavan 

O que era flor
Eu já catei pra dar
Até meus lápis de cor
Eu já dei
G.I. Joe, já dei
O que se pensar 
Eu já dei
Minhas conchas do mar
Ah! Minha flor
Chega de maltratar
O que mais pode agradar
A você
Eu já fiz de tudo
Cadê que adiantou
Que louco
Que é o amor
Tem graça viver
Quando ele fica de mal
Não quer brincar...

Txucarramãe
Krenacroro
Kalapalo
Yawalapiti - iiii - iiii
Kamayurá
Kayabí
Kuikúru
Waurà
Suyá
Awetí - iiii - iiii


AZUL
Djavan 

Eu não sei se vem de Deus
Do céu ficar azul
Ou virá dos olhos teus
Essa cor que azuleja o dia?
Se acaso anoitecer
Do céu perder o azul
Entre o mar e o entardecer
Alga-marinha vá na maresia
Buscar ali um cheiro de azul
Essa cor não sai de mim
Bate e finca pé
A sangue de rei


Até o sol nascer amarelinho
Queimando mansinho
Cedinho, cedinho, cedinho,
Corre e vá dizer pro meu benzinho
Um dizer assim:
O amor é azulzinho.


Até o sol nascer amarelinho
Queimando mansinho
Cedinho, cedinho, cedinho
Corre e vá dizer pro meu benzinho
Um dizer assim:
O amor é azulzinho.
Parla!:

Quinta-feira, Março 25

 
A Alma do Vinho

Charles Baudelaire
tradução Guilherme de Almeida 

A alma do vinho assim cantava nas garrafas:
"Homem, ó desherdado amigo, eu te compús,
Nesta prisão de vidro e lacre em que me abafas,
Um cântico em que há só fraternidade e luz!

Bem sei quanto custa, na colina incendida,
De causticante sol, de suor e de labor,
Para fazer minha alma e engendrar minha vida;
Mas eu não hei de ser ingrato e corruptor,

Porque eu sinto um prazer imenso quando baixo
À guela do homem que já trabalhou demais,
E seu peito abrasante é doce tumba que acho
Mais propícia ao prazer que as adegas glaciais.

Não ouves retinir a domingueira toada
E esperanças chalrar em meu seio, febrís?
Cotovelos na mesa e manga arregaçada,
Tu me hás de bendizer e tu serás feliz:

Hei de acender-te o olhar da esposa embevecida;
A teu filho farei voltar a força e a cor
E serei para tão tenro atleta da vida
Como o óleo que os tendões enrija ao lutador.

Sobre ti tombarei, vegetal ambrosia,
Grão precioso que lança o eterno Semeador,
Para que enfim do nosso amor nasça a poesia
Que até Deus subirá como uma rara flor!"

Parla!:
 
Laerte
Parla!:
 

Olha que louco esse banco...
Pudera! O "Pessoa" acaba inspirando isso...
Inspira... Expira...


Parla!:
 

Tabacaria
Fernando Pessoa

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os 
sonhos do mundo. 
Janelas do meu quarto
De meu quarto de um dos milhões do mundo 
que ninguém sabe quem é 
(E se soubessem quem é, o que saberiam ?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada 
constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos 
os pensamentos,
Real, impossívelmente real, certa, 
desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo 
das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes 
e cabelos brancos nos homens,
Com o destino a conduzir a carroça 
de tudo pela estrada de nada. 
Estou hoje vencido, como se 
soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como 
se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade 
com as coisas
Senão uma despedida, 
tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, 
e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos 
e um ranger de ossos na ida. 
Estou hoje perplexo, 
como quem e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre 
a lealdade que devo
À tabacaria do outro lada da rua, 
como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo 
é sonho, como coisa real por dentro 
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, 
talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira.
Em que hei-de pensar ? 
Que sei eu do que serei, 
eu que não sei o que sou ?
Ser o que penso ? 
Mas penso ser tanta coisa !
E há tantos que pensam ser 
a mesma coisa que não pode haver tantos !
Génio ? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem 
em sonho génios como eu,
E a história não marcará, 
quem sabe ?, nem um,
Nem haverá senão estrume 
de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há 
doidos malucos com tantas certezas !
Eu, que não tenho nenhuma certeza, 
sou mais certo ou menos certo ?
Não, em mim...
Em quantas mansaradas e 
não-mansaradas do mundo
Não estão nesta hora 
gênios-para-si-mesmos sonhando ?
Quantas aspirações altas e nobres 
e lúcidas-,
Sim, verdadeiramente 
altas e nobres e lúcidas-,
E quem sabe se realizáveis, 
Nunca verão a luz do sol real 
nem acharão ouvidos de gente ?
O mundo é para quem nasce 
para o conquistar
E não para quem sonha que pode 
conquistá-lo, ainda que tenha razão
Tenho sonhado mais que o que 
Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético 
mais humanidades que Cristo.
Tenho feito filosofias em segredo 
que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, 
o da mansarada,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que 
lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta, 
E cantou a cantiga do infinito numa capoiera,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim ? Não, nem em nada.
Derrama-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que 
me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, 
ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrealas,
Conquistámos todo o mundo antes 
de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantámo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira.
Mais o sistema solar e a Via Láctea e 
o indefinido. 
(Come chocalates, pequena;
Come chocolates !
Olha que não há mais metafísica no mundo 
senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais 
que a confeitaria.
Como, pequena suja, come !
Pudesse eu comer chocolates com a mesma 
verdade com que comes !
Mas eu penso, e ao tirar o papel de prata, 
que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, 
como tenho deitado a vida.) 
Mas ao menos fica 
da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida deste versos.
Pórtico partido para o impossível.
Mas ao menos consagro a mim 
mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com 
que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra 
o descurso das coisas,
E fico sem camisa. 
(Tu, que consolas, que não existes 
e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida 
como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossívelmente 
nobre e nefasta.
Ou princesa de trovadores, 
gentilíssima e colorida.
Ou marquesa do século dezoito, 
decotada e longínqua,
Ou cocotte célebre do tempo 
dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - 
não concebo bem o quê-,
Tudo isso, seja o que for, 
que sejas, se pode inspirar que inspire !
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam 
espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com 
uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, Vejo os passeios, 
vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa 
como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, Como tudo.) 
Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo 
que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um dos andrajos 
e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses 
nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é impossível fazer a realidade 
de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, 
como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do rabo remexidamente. 
Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era 
e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando tirei e vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia 
vestir o dominó que não tinha tirado 
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história 
para provar que eu sou sublime. 
Essência musical 
dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me 
como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte 
da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência 
de estar existindo,
Como um tapete em 
que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos 
roubaram e não valia nada. 
Mas o dono da Tabacaria chegou 
à porta e ficou à porta.
Olho-o com o desconforto 
da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-ententendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, 
e os versos também.
Depois de certa altura 
morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em 
que tudo isso se deu.
Em outros satélites de outros sistemas 
qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos 
e vivendo por baixo das coisas como tabuletas, 
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo 
como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou 
nem uma coisa nem outra. 
Mas um homem entrou 
na Tabacaria(para comprar tabaco ?),
E a realidade plausível cai de repente 
em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, 
humano
E vou tencionar escrever 
estes versos em que digo o contrário. 
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação 
de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como a uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica 
é uma conseqüência de estar mal disposto. 
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, 
continuarei fumando.
(Seu eu casasse 
com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. 
Vou à janela. 
O homem saiu da Tabacaria
(metendo troco na algibeira das calças ?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves ! 
e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, 
e o Dono da Tabacaria sorriu.
Parla!:

Domingo, Março 21

 

Se Tudo Pode Acontecer
Arnaldo Antunes 

Se tudo pode acontecer
se pode acontecer qualquer coisa
um deserto florescer
uma nuvem cheia não chover

pode alguém aparecer
e acontecer de ser você
um cometa vir ao chão
um relâmpago na escuridão

e a gente caminhando de
mão dada de qualquer maneira
eu quero que esse momento
dure a vida inteira
e além da vida ainda
de manhã no outro dia
se for eu e você
se assim acontecer

se tudo pode acontecer

Parla!:
 


ESTOU COM UMA SAUDADE ENORME, 
DE UMA PESSOINHA QUE EU AMO MUITO 
E QUE ADORA ME OUVIR CANTANDO ESSA MÚSICA!
DIKO LIKO ESSA É PARA VC!!!

João e Maria
Chico Buarque

Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões, os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque e ensaiava o rock para as matinês
Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei a gente era obrigada a ser feliz
E você era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país
Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião, o seu bicho preferido
Vem, me dê a mão, a gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido
Agora era fatal que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá desse quintal era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
Parla!:

Sexta-feira, Março 19

 
 

Danço na lua
quando encontro comigo
sem gravidade

Satélite soberbo
me sinto quebrar
os ritos da razão.

(Claudia Garrocini)
Parla!:
 
 

TARSILA

Parla!:
 

Tenho tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal. 
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada. 

Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar. 

Fernando Pessoa, 18-9-1933 


Grandes mistérios habitam
O limiar do meu ser,
O limiar onde hesitam
Grandes pássaros que fitam
Meu transpor tardo de os ver. 
São aves cheias de abismo,
Como nos sonhos as há.
Hesito se sondo e cismo,
E à minha alma é cataclismo
O limiar onde está. 

Então desperto do sonho
E sou alegre da luz,
Inda que em dia tristonho;
Porque o limiar é medonho
E todo passo é uma cruz. 

Fernando Pessoa, 2-10-1933 


Parla!:

Domingo, Março 14

 


Quase Nada
Zeca Baleiro
 
De você sei quase nada
Pra onde vai ou porque veio
Nem mesmo sei
Qual é a parte da tua estrada 
No meu caminho


Será um atalho
Ou um desvio
Um rio raso
Um passo em falso
Um prato fundo
Pra toda fome
Que há no mundo

Noite alta que revele
Um passeio pela pele
Dia claro madrugada
De nós dois não sei mais nada

De você seI quase nada 
Pra onde vai ou porque veio
Nem mesmo sei
Qual é a parte da tua estrada 
No meu caminho

Será um atalho
Ou um desvio
Um rio raso
Um passo em falso
Um prato fundo
Pra toda fome
Que há no mundo

Se tudo passa com se explica
O amor que fica nessa parada
Amor chega sem dar aviso 
Não é preciso saber mais nada
Parla!:
 

SE
(Alice Ruiz)

se por acaso
a gente se cruzasse
ia ser um caso sério
você ia rir até amanhecer
eu ia ir até acontecer
de dia um improviso
de noite uma farra
a gente ia viver
com garra


eu ia tirar de ouvido
todos os sentidos
ia ser tão divertido
tocar um solo em dueto


ia ser um riso
ia ser um gozo
ia ser todo dia
a mesma folia
até deixar de ser poesia
e virar tédio
e nem o meu melhor vestido
era remédio


daí vá ficando por aí
eu vou ficando por aqui
evitando
desviando
sempre pensando
se por acaso
a gente se cruzasse...
Parla!:
 
CARAVAGGIO - Narciso
Parla!:
 
MICHELANGELO - Leda
Parla!:
 


TRAGO

Traguei a fumaça que destrói a vida,
pensei em coisas perdidas,
nas que foram mantidas.

Na dor da vida, 
na desesperança mantida,
na minh'alma perdida.

Pensei ser saída
a porta que você abria.
Pensei ser ferida
a dor da partida.

Trago a fumaça que destrói a vida,
penso em coisas perdidas,
penso em minha vida.

Traga de volta minha vida,
encontre as coisas perdidas,
devolva-me a vida.


André Luís  28/06/01 



LIBERTE-ME

Vesti-me de negro
E sai a caminhar entre as estrelas.
Brinquei no lado escuro da lua,
Andei pela sombra tua.
Voei nas asas de um morcego 
Passei a mão em seus cabelos.
Selei um gato preto
E andei pelos telhados.
A sombra de uma árvore
Contemplei o canto 
Noturno da coruja.
Chorei enquanto as crianças 
Da noite a saudavam uivando.
Dancei no orvalho fino:
O véu da noite.
Mergulhei nas águas
Escuras e frias do lago,
Toquei as estrelas, a lua,
Que ali se embelezavam.
Repousei na caverna do sono profundo,
E quando o sol se aprontava
Por dar cores ao mundo, fugi.
Fugi e me fiz nu
A penumbra de uma vela.


André Luís -  21/04/1999.

Obrigada Andrezito! Seja bem vindo ao Eclipsis!!!
Parla!:

Sexta-feira, Março 12

 

KANDINSKY

Parla!:
 
 
Juan Miró

Parla!:
 

HAI 

     Eis que nasce completo 
  e, ao morrer, morre germe, 
     o desejo, analfabeto, 
  de saber como reger-me, 
     ah, saber como me ajeito 
  para que eu seja quem fui, 
     eis o que nasce perfeito 
  e, ao crescer, diminui. 

  KAI  

     Mínimo templo 
  para um deus pequeno, 
     aqui vos guarda, 
  em vez da dor que peno, 
     meu extremo anjo de vanguarda. 
   
     De que máscara 
  se gaba sua lástima, 
     de que vaga 
  se vangloria sua história, 
     saiba quem saiba. 

     A mim me basta 
  a sombra que se deixa, 
     o corpo que se afasta. 
(Paulo Leminski)
Parla!:
 

Já me matei faz muito tempo  
  me matei quando o tempo era escasso 
   e o que havia entre o tempo e o espaço  
  era o de sempre 
   nunca mesmo o sempre passo 

   morrer faz bem à vista e ao baço 
  melhora o ritmo do pulso 
   e clareia a alma 

   morrer de vez em quando 
  é a única coisa que me acalma 
(Paulo Leminski)
Parla!:
 

O último poema
(Manuel Bandeira)

Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
 
Parla!:

Quinta-feira, Março 4

 
Parla!:

Quarta-feira, Março 3

 

TIREI ESSAS FOTOS NUM PARAÍSO CHAMADO ESTREITO
Parla!:
 



DE VOLTA OS POEMAS 
JÁ POSTADOS
Em breve vou postar novos...


TEMPO

O tempo foge por entre meus dedos
O caminho se perde sob meus pés
O destino me acena ao longe
E não posso ver com clareza

Meu sonho se confunde com sua existência
Meu mundo se perde em seu silêncio
Tua voz estremece minha alma

Um recado deixado
Um sorriso
Um toque
E essa amizade que não evolui num beijo

(Claudia Garrocini)

TERRA

Terra sorri
Quando cai a chuva
Permeando o chão
Reluzindo o grão

E na janela
Um olhar pousado
Sobre a plantação
Esperando que a semente 
Floresça e vire pão
Ou simplesmente uma cor
Pra passear
Borboleta alimentar
Os olhos de quem vê

Chuva que cai
Esperança nessa água
Harmonia que sacia
Neste dia e deságua
Flor desse querer

Cheiro de mato
Minha fantasia
Ver o chão molhado
Ajuda a crescer

Eu não podia ter enamorado
Sol e lua me confunde 
No amanhecer
Dia que brilha
Verde caminhada
A semente brota
Dentro do meu ser

Então eu venço
Me convenço do futuro
Uma flor molhada
Pensando em você.

(Claudia Garrocini)



HOJE
Capitalismo acordou de férias
Não há permuta, venda, troca, compra
Ta tudo parado

Pessoal da bolsa congelado
Seu dinheiro acabado
Tudo que era mercado
Hoje deixou de ser

Nossas moedas
Hoje são pedrinhas
Coloridas e brilhantes
Nem pretendo entender
Mas sei que neste instante
Nem real nem debêntures
Cotação do dólar
Prestação da casa
Poupança sagrada
Aplicação em nada
Nem quero saber

Hoje existe é felicidade
E nesta cidade eu quero viver

Nosso desejo se transforma
Feito mágica
Não tem pobre nem rico
Você precisa ver
Estamos livres dessa papelada
Extrato, conta, cheque, promissória
Não há nada
Ninguém sabe por que

Por um momento 
Isso tudo foi embora
Pra fazer lembrar
Que outrora
O importante era você

Então esqueça minha utopia
Esse dia imaginário
Que acordei pensando
No que pulsa e faz querer
O seu dinheiro já não paga meu sorriso
Tudo que eu preciso
É aprender viver.(Claudia Garrocini)



Parla!:
 

CONHECEM O LIVRO "DEUS SEGUNDO LAERTE?"

Parla!:
 
Parla!:
 

Os dois lados do pênalti ou O INSTANTE FATAL
 
Lendo artigo do jornalista esportivo francês Christophe Barbier, 
narrando o momento decisivo da cobrança de um pênalti, resolvi traduzi-lo (e parodiá-lo).

Cantada em prosa e verso, e filme, a angústia do goleiro no momento da cobrança de um 
pênalti não é segredo pra ninguém. Mas engolir um pênalti é o esperado. Se a bola atravessa
a linha fatal ninguém culpa o goleiro desde que a torcida sinta que ele se esforçou. Seu esforço 
é sempre visível e muitas vezes aplaudível, mesmo quando não consegue evitar o tento. E se a 
bola vai pro espaço, ou bate numa das traves, a galera aplaudirá sua sorte, sinal do além que 
distingue os grandes defensores. E se, mais que isso, ele detém a bola, defende o pênalti, é 
um Hércules, um Deus do esporte, um milagre.

O artilheiro tem todo outro destino. Marcar um pênalti não é mais do que sua obrigação. 
No futebol marcar gol de pênalti é quase o mínimo exigido pela confederação, pro atleta 
ser considerado um profissional. Falhar, ao contrário, significa que não merece o salário que
 ganha, o pão que come. Um avante que perde um gol feito é um fracasso, o que perde um 
pênalti é um traidor do clube. Arrisca a vergonha, a punição de ofensas na rua, até agressões 
físicas. Daí a angústia do artilheiro na hora da cobrança do pênalti ser bem maior do que a do goleiro. 
A dúvida metafísica - à direita ou à esquerda? Com violência ou na malandragem? De bico ou de lado? 
Examina com exatidão o jeito de colocação do goleiro ou usa seu melhor estilo e seja o que Deus quiser?

Mas há a alternativa inevitável - chutar raspando bem abaixo da trave superior ou visar um dos extremos 
laterais? Mas raspar bem abaixo da trave superior significa a possibilidade muito mais ampla de raspar
acima, e o extremo lateral de dentro não raro se torna o extremo de fora. 

E como, quase sempre, o goleiro se prepara pra saltar pra um dos lados, certos cobradores visam 
exatamente o meio do alvo. É assim que muitos goleiros, petrificados pelo medo em sua posição, 
se tornaram gloriosos simplesmente porque receberam uma bola em pleno peito. Variação do herói 
que defende a pátria oferecendo o peito a uma bala. E sobrevive.
(Millôr Fernandes)
Parla!:
 

CONTEMPLEM ESTE TRABALHO! 
Foto - gravura com ampliação em papel, e utilização de máscaras no processo do fotógrafo Marcos Magaldi: 
"auto retrato", "nu" e "natureza morta "
Parla!:
 

OS DETALHES SÃO MUITO IMPORTANTES NA ARTE!
VEJAM AS FOTOS DO COPAN, DA RUA FLORÊNCIO DE ABREU E DO VIADUTO SANTA EFIGÊNIA, 
RESPECTIVAMENTE CLICADAS PELO FOTÓGRAFO CRISTIANO MASCARO.

visite também o espaço dedicado às noticias de artes do uol!
Parla!:
 

Tô com vontade de meter a bota na vida 
e dar uma volta nessa bota!




Parla!:
 

A LENDA DE NARCISO
Fonte: BULFINCH : O Livro de Ouro da Mitologia Grega. Rio de Janeiro: Ediouro

"É o que Narciso acha feio o que não é espelho..." 
(Caetano Veloso - Sampa)
 
Era uma vez uma ninfa Eco, favorita de Diana, amante dos bosques e dos montes, dedicada aos 
prazeres campestres.Certo dia, Juno (Hera) estava atrás de seu marido, Júpiter (Zeus), desconfiada 
que ele estava em mais uma de suas aventuras extra-conjugais com as ninfas. 
Eco conseguiu entreter a deusa até as ninfas fugirem. Percebendo isso, Juno lançou-lhe uma maldição: 
- De hoje em diante Eco só usaria sua língua apenas para repetir as últimas palavras pronunciadas, 
nunca podendo falar em primeiro lugar. Então a ninfa Eco saiu pelos bosques e campos, carregando a 
sua maldição. Até que um dia viu Narciso, um belo jovem caçando na montanha. Eco apaixonou-se 
perdidamente por ele e passou a segui-lo, com um imenso desejo de lhe falar de seu amor. 
Esperou com impaciência que ele falasse primeiro para que ela pudesse lhe responder, mas era em vão.
Um dia Narciso perdeu-se de seus amigos e começou a gritar: "Tem alguém aqui?". 
Eco, escondida, respondeu "Aqui". Narciso perguntou "por que foges de mim?", 
Eco respondeu com a mesma pergunta. Narciso começou a ficar desconfiado daquela voz que lhe repetia 
tudo e não aparecia para ele.  Até que Eco apareceu em frente a ele, sempre repetindo as suas 
palavras e pronta para atirar-se em seus braços. Narciso a afastou violentamente e disse: 
"Prefiro morrer do que deixar possuir-me!"
Eco, com muita vergonha, foi esconder-se nas cavernas e nos rochedos. Perambulou até que seu 
corpo definhasse até que as carnes desaparecessem definitivamente. Os ossos transformaram-se 
em rochedo e nada mais restou dela além da voz, sempre a repetir a última palavra pronunciada.
Narciso, a partir de então, passou a desprezar todas as ninfas e donzelas que encontrasse pela frente. 
Certo dia, uma donzela muito desiludida com a rejeição de Narciso, implorou aos deuses que ele viesse 
algum dia a saber o que é o amor e não ser correspondido. A deusa da vingança ouviu a prece e atendeu-a.
Um dia Narciso estava caçando e chegou até uma fonte de água cristalina para saciar a sua sede. Ao debruçar-se 
sobre a água, viu seu reflexo e acreditou ser um belo espírito das águas. Ficou ali, admirando aquela imagem 
até que apaixonou-se perdidamente. Narciso dedicou-se a permanecer ali, à beira daquela fonte, esperando que 
aquele espírito lhe correspondesse o amor. Não comia, não dormia, apenas admirava a imagem, até morrer. 
Nesse lugar, as ninfas acharam uma flor roxa, rodeada de folhas brancas e a ela deram o nome de Narciso. 



Parla!:
 

FELICIDADE REALISTA
 Mário Quintana

A princípio, bastaria ter saúde, dinheiro e amor, o que já é um pacote louvável, 
mas nossos desejos são  ainda mais complexos.
Não basta que a gente esteja sem febre: queremos, além de saúde, ser magérrimos, 
sarados, irresistíveis.
Dinheiro? Não basta termos para pagar o aluguel, a comida e o cinema: queremos a 
piscina olímpica e  uma temporada num spa cinco estrelas.
E quanto ao amor? Ah, o amor... não basta termos  alguém com quem podemos conversar, 
dividir uma pizza  e fazer sexo de vez em quando.
Isso é pensar  pequeno: queremos AMOR, todinho maiúsculo.  Queremos estar visceralmente 
apaixonados,  queremos ser surpreendidos por declarações e  presentes inesperados, 
queremos jantar à luz de  velas de segunda a domingo, queremos sexo selvagem e diário, 
queremos ser felizes assim e não de outro  jeito. É o que dá ver tanta televisão.
Simplesmente esquecemos de tentar ser felizes de uma forma mais realista.

Ter um parceiro constante, pode ou não, ser sinônimo  de felicidade.
Você pode ser feliz solteiro, feliz  com uns romances ocasionais, feliz com um parceiro,  
feliz sem nenhum. Não existe amor minúsculo, principalmente quando se trata de amor-próprio.

Dinheiro é uma benção. Quem tem, precisa aproveitá-lo, gastá-lo, sufruí-lo.
Não perder tempo juntando, juntando, juntando.
Apenas o suficiente para se sentir seguro, mas não aprisionado.
E se a gente tem pouco, é com este pouco que vai tentar  segurar a onda,buscando coisas 
que saiam de graça,  como um pouco de humor, um pouco de fé e um pouco de  criatividade.

Ser feliz de uma forma realista é fazer o possível e aceitar o improvável. Fazer exercícios sem 
almejar  passarelas, trabalhar sem almejar o estrelato, amar sem almejar o eterno.
Olhe para o relógio: hora de acordar.

É importante pensar-se ao extremo, buscar lá dentro o que nos mobiliza, instiga e conduz 
mas sem exigir-se desumanamente. A vida não é um jogo onde  só quem testa seus limites é 
que leva o prêmio. Não  sejamos vítimas ingênuas desta tal competitividade.  Se a meta está alta 
demais, reduza-a. Se você não está de acordo com as regras, demita-se.
Invente seu próprio jogo.

Faça o que for necessário para ser feliz. Mas não se  esqueça de que afelicidade é um sentimento 
simples,  você pode encontrá-la e deixá-la irembora por não  perceber sua simplicidade. Ela transmite 
paz e não sentimentos fortes, que nos atormenta e provoca  inquietude no nosso coração. Isso pode 
ser alegria, paixão, entusiasmo, mas não felicidade...

OBRIGADA PELO TOQUE GIANVECCHIO!

 

 
   
  This page is powered by Blogger, the easy way to update your web site.  

Home  |  Archives