Eclipsis Litteris
 

 
 
Poéticas 
e 
Visuais
 
 
   
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Sexta-feira, Agosto 27

 

Waldo Bravo...
um amigo.



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Deus e Laerte...
uma delícia.






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MAPA DE ANATOMIA: O OLHO
(Cecília Meireles)

O Olho é uma espécio de globo, 
é um pequeno planeta 
com pinturas do lado de fora. 
Muitas pinturas: 
azuis, verdes, amarelas. 
É um globobrilhante: 
parece cristal, 
é como um aquário com plantas 
finamente desenhadas: algas, sargaços, 
miniaturas marinhas, areias, rochas, 
naufrágios e peixes de ouro. 

Mas por dentro há outras pinturas, 
que não se vêem: 
umas são imagens do mundo, 
outras são invetadas. 

O Olho é um teatro por dentro. 
E às vezes, sejam atores, sejam cenas, 
e às vezes, sejam imagens, sejam ausências, 
formam, no Olho, lágrimas. 
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FALA DO VELHO DO RESTELO AO ASTRONAUTA
(José Saramago)

Aqui na terra a fome continua 
A miséria e o luto 
A niséria e o luto e outra vez a fome 
Acendemos cigarros em fogos de napalm 
E dizemos amor sem saber o que seja. 
Mas fizemos de ti a prova da riqueza. 
Ou talvez da pobreza, e da fome outra vez. 
E pusemos em ti nem eu sei que desejos 
De mais alto que nós, de melhor e mais puro. 
No jornal soletramos de olhos tensos 
Maravilhas do espaço e de vertigem. 
Salgados oceanos que circundam 
Ilhas mortas de sede onde não chove. 
Mas a terra, astronauta, é boa mesa 
(E as bombas de napalm são brinquedos) 
Onde come brincando só a fome 
Só a fome, astronauta, só a fome.

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VERSOS DE ORGULHO
(Florbela Espanca)

O mundo quer-me mal porque ninguém 
Tem asas como eu tenho! Porque Deus 
Me fez nascer Princesa entre plebeus 
Numa torre de orgulho e de desdém. 

Porque o meu Reino fica para além... 
Porque trago no olhar os vastos céus 
E os oiros e clarões são todos meus! 
Porque eu sou Eu e porque Eu sou Alguém! 

O mundo? O que é o mundo, ó meu Amor? 
- O jardim dos meus versos todo em flor... 
A seara dos teus beijos, pão bendito... 

Meus êxtases, meus sonhos, meus cansaços... 
- São os teus braços dentro dos meus braços, 
Via Láctea fechando o Infinito. 

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ARTE DE AMAR
(Manuel Bandeira)

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma. 
A alma é que estraga o amor. 
Só em Deus ela pode encontrar satisfação. 
Não noutra alma. 
Só em Deus ¿ ou fora do mundo. 
As almas são incomunicáveis. 

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo. 

Porque os corpos se entendem, mas as almas não. 

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Poesias de Oswald de Andrade

Secretário dos amantes
 
I
Acabei de jantar um excelente jantar
116 francos
Quarto 120 francos com água encanada
Chauffage central
Vês que estou bem de finanças
Beijos e coisas de amor

 II
Bestão querido
Estou sofrendo
Sabia que ia sofrer
Que tristeza este apartamento de hotel 

III 
Granada é triste sem ti
Apesar do sol de ouro
E das rosas vermelhas

IV 
Mi pensamiento hacia Medina del Campo
Ahora Sevilla envuelta en oro pulverizado
Como una dádiva a mis ojos enamorados
Sin embargo que tarde la mia

V 
Que alegria teu rádio
Fiquei tão contente
que fui à missa
Na igreja toda a gente me olhava
Ando desperdiçando beleza
Longe de ti 

VI 
Que distância!
Não choro
porque meus olhos ficam feios.

3 de maio 
Aprendi com meu filho de dez anos
Que a poesia é a descoberta
Das coisas que nunca vi 
 
Ditirambo 
Meu amor me ensinou a ser simples
Como um largo de igreja 
Onde não há nem um sino 
Nem um lápis 
Nem uma sensualidade 


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NA ESTRADA
(Claudia Garrocini)

na estrada
laços se perdem
enquanto
polarizamos sonhos
busca ultrapassa formigas
passos largos
rodas negras
marcas no asfalto
pedaços da sua própria vida

na estrada
desejo ganha medo
menino ganha força
olhos vasculham a paisagem
sorriso se perde
em fotogramas
que ignoram
surpresa e encontro

mochilas uniformes
tênis dão força
e os olhos continuam 
a vasculhar na escuridão

é na estrada
abusamos do tato
da força do ato
do beijo blindado
dourado de sol

vamos
em busca de nós mesmos
a cada pequeno fragmento
de olhar
de sorriso
beijo
nessa dança concedida
fica aberta a ferida
parada na contramão

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Reverência ao Destino 
por Carlos Drummond de Andrade    

Falar é completamente fácil, 
quando se tem palavras em mente 
que expressem sua opinião.
Difícil é expressar por gestos 
e atitudes o que realmente queremos dizer, 
o quanto queremos dizer, antes que a pessoa se vá.
Fácil é julgar pessoas que estão sendo expostas 
pelas circunstâncias.
Difícil é encontrar e refletir sobre os seus erros, 
ou tentar fazer diferente algo que já fez muito errado.
Fácil é ser colega, fazer companhia a alguém, 
dizer o que ele deseja ouvir.
Difícil é ser amigo para todas as horas 
e dizer sempre a verdade quando for preciso.
E com confiança no que diz.
Fácil é analisar a situação alheia 
e poder aconselhar sobre esta situação.
Difícil é vivenciar esta situação 
e saber o que fazer. 
Ou ter coragem para fazer.
Fácil é demonstrar raiva 
e impaciência quando algo o deixa irritado.
Difícil é expressar o seu amor a alguém 
que realmente te conhece, te respeita e te entende.
E é assim que perdemos pessoas especiais.
Fácil é mentir aos quatro ventos 
o que tentamos camuflar.
Difícil é mentir para o nosso coração.
Fácil é ver o que queremos enxergar.
Difícil é saber que nos iludimos 
com o que achávamos ter visto.
Admitir que nos deixamos levar, 
mais uma vez, isso é difícil.
Fácil é dizer "oi" ou "como vai?"
Difícil é dizer "adeus".
Principalmente quando somos culpados 
pela partida de alguém de nossas vidas...
Fácil é abraçar, apertar as mãos, 
beijar de olhos fechados.
Difícil é sentir a energia que é transmitida.
Aquela que toma conta do corpo 
como uma corrente elétrica 
quando tocamos a pessoa certa.
Fácil é querer ser amado.
Difícil é amar completamente só.
Amar de verdade, sem ter medo de viver, 
sem ter medo do depois. Amar e se entregar.
E aprender a dar valor somente a quem te ama.
Fácil é ouvir a música que toca.
Difícil é ouvir a sua consciência.
Acenando o tempo todo, 
mostrando nossas escolhas erradas.
Fácil é ditar regras. Difícil é seguí-las.
Ter a noção exata de nossas próprias vidas, 
ao invés de ter noção das vidas dos outros.
Fácil é perguntar o que deseja saber.
Difícil é estar preparado para escutar esta resposta. 
Ou querer entender a resposta.
Fácil é chorar ou sorrir quando der vontade.
Difícil é sorrir com vontade de chorar 
ou chorar de rir, de alegria.
Fácil é dar um beijo.
Difícil é entregar a alma. 
Sinceramente, por inteiro.
Fácil é sair com várias pessoas ao longo da vida.
Difícil é entender que pouquíssimas delas 
vão te aceitar como você é e te fazer feliz por inteiro .
Fácil é ocupar um lugar na caderneta telefônica.
Difícil é ocupar o coração de alguém.
Saber que se é realmente amado.
Fácil é sonhar todas as noites.
Difícil é lutar por um sonho.
Eterno, é tudo aquilo que dura uma fração de segundo, 
mas com tamanha intensidade, 
que se petrifica, e nenhuma força jamais o destrói.
 
sem comentários...

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Sexta-feira, Agosto 20

 

 PORTINARI


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Quinta-feira, Agosto 19

 
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SABE VOCÊ
(Nara Leão)

Você é muito mais que eu sou
Está bem mais rico do que eu estou
Mas o que eu sei você não sabe
E antes que o seu poder acabe
Eu vou mostrar como e por que
Eu sei, eu sei mais que você 
Sabe você o que é o amor? Não sabe, eu sei
Sabe o que é um trovador? Não sabe, eu sei. 
Sabe andar de madrugada tendo a amada pela mão
Sabe gostar, qual sabe nada, sabe, não
Você sabe o que é uma flor? Não sabe, eu sei. 
Você já chorou de dor? Pois eu chorei.
Já chorei de mal de amor, já chorei de compaixão
Quanto à você meu camarada, qual o que, não sabe não 
E é por isso que eu lhe digo e com razão
Que mais vale ser mendigo que ladrão
Sei que um dia há de chegar e isso seja quando for
Em que você pra mendigar, só mesmo o amor
Você pode ser ladrão quando quiser
Mas não rouba o coração de uma mulher
Você não tem alegria, nunca fez uma canção
Por isso a minha poesia, ah, ah, você não rouba não 
Ah, ah, você não rouba não

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O ATOR 
(Plínio Marcos)
Amo o ator mais ainda quando, 
depois de tantos martírios, surge no palco com segurança, 
merecendo seu corpo, sua voz, sua alma, sua sensibilidade 
para expor sem nenhuma reserva, 
toda iragilidade do ser humano reprimido, violentado. 
Amo o ator por se emprestar inteiro 
para expor os aleijões da alma humana, 
na tentativa de que o público se compreenda, se fortaleça 
e caminhe no rumo de um mundo melhor, 
a ser construido pela harmonia e pelo amor. 
Amo o ator consciente 
de que a recompensa possível não é o dinheiro, nem o aplauso. 
Mas a esperança de poder rir todos os risos 
e chorar todos os prantos. 
Amo o ator consciente de que, no palco, 
cada palavra e cada gesto são efêmeros, 
pois nada registra nem documenta sua grandeza. 
Amo o ator e por ele amo o TEATRO. 
Sei que é por ele que o teatro é eterno 
e jamais será superado por qualquer arte 
que se valha de técinas mecânicas." 

Belo texto enviado pela Janaína!
Parabéns Nega!

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JOÃO E MARIA
Chico Buarque

Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy era você além das outras três
Eu enfrentava os batalhões, os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque e ensaiava o rock para as matinês
Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei a gente era obrigada a ser feliz
E você era a princesa que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país
Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião, o seu bicho preferido
Vem, me dê a mão, a gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade acho que a gente nem tinha nascido
Agora era fatal que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá desse quintal era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar

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SEMPRE, DE VEZ EM QUANDO 
Leila Míccolis 

Toda vez que amanheço
de porre, sem ter bebido,
é prenuncio de tempestades.
Os calos não doem
com a mudança do tempo,
mas meu coração dispara
e o olfato fica mais aguçado
que faro de perdigueiro.
Nestas horas,
não adianta ninguém me dizer
que "viver é experimentar",
porque o máximo que eu consigo
é avaliar as avarias
causadas pelos arpões.

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UMA ARTE
Elizabeth Bishop 
Tradução de Horácio Costa 

A arte de perder não tarda aprender;
tantas coisas parecem feitas com o molde
da perda que o perdê-las não traz desastre.

Perca algo a cada dia. Aceita o susto
de perder chaves, e a hora passada embalde.
A arte de perder não tarda aprender.

Pratica perder mais rápido mil coisas mais:
lugares, nomes, onde pensaste de férias
ir. Nenhuma perda trará desastre.

Perdi o relógio de minha mãe. A última,
ou a penúltima, de minhas casas queridas
foi-se. Não tarda aprender, a arte de perder.

Perdi duas cidades, eram deliciosas. E,
pior, alguns reinos que tive, dois rios, um
continente. Sinto sua falta, nenhum desastre.

- Mesmo perder-te a ti (a voz que ria, um ente
amado), mentir não posso. É evidente:
a arte de perder muito não tarda aprender,
embora a perda - escreva tudo! - lembre desastre

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ÁLBUM JAPONÊS 
Eliane Pantoja Vaidya 

A gueixa dentro de mim
aprova o homem que tu és
Já meu samurai
retesou-se ao máximo
quando a mulher dentro de ti
soltou os cabelos
nuvens douradas sobre os ombros
e ofereceu-me sensualmente
a cabeça para que os prendesse
As minhas mãos
prontas para o vôo
ficaram ao longe de meu corpo
nenhum músculo se mexeu.
Só meu coração
era cavalo bravo
galopando
alucinado
de desejo.


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GO BACK
(Titãs)

Você me chama
Eu quero ir pro cinema
Você reclama
Meu coração não contenta
Você me ama
Mas de repente a madrugada
mudou
E certamente
Aquele trem já passou
E se passou
Passou daqui pra melhor,
foi!


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Alegria, Alegria
Caetano Veloso

CAMINHANDO CONTRA O VENTO
SEM LENÇO, SEM DOCUMENTO
NO SOL DE QUASE DEZEMBRO
EU VOU

O SOL SE REPARTE EM CRIMES,
ESPAÇONAVES, GUERRILHAS
EM CARDINALES BONITAS
EU VOU

EM CARAS DE PRESIDENTES
EM GRANDES BEIJOS DE AMOR
EM DENTES, PERNAS, BANDEIRAS
BOMBA E BRIGITTE BARDOT
O SOL NAS BANCAS DE REVISTA
ME ENCHE DE ALEGRIA E PREGUIÇA
QUEM LÊ TANTA NOTÍCIA
EU VOU

POR ENTRE FOTOS E NOMES
OS OLHOS CHEIOS DE CORES
O PEITO CHEIO DE AMORES VÃOS
EU VOU
POR QUE NÃO, POR QUE NÃO

ELA PENSA EM CASAMENTO
E EU NUNCA MAIS FUI À ESCOLA
SEM LENÇO, SEM DOCUMENTO,
EU VOU

EU TOMO UMA COCA-COLA
ELA PENSA EM CASAMENTO
E UMA CANÇÃO ME CONSOLA
EU VOU

POR ENTRE FOTOS E NOMES
SEM LIVROS E SEM FUZIL
SEM FOME SEM TELEFONE
NO CORAÇÃO DO BRASIL

ELA NEM SABE ATÉ PENSEI
EM CANTAR NA TELEVISÃO
O SOL É TÃO BONITO
EU VOU
SEM LENÇO, SEM DOCUMENTO
NADA NO BOLSO OU NAS MÃOS
EU QUERO SEGUIR VIVENDO, AMOR
EU VOU
POR QUE NÃO, POR QUE NÃO...



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DANIEL NA COVA DOS LEÕES
(Legião Urbana)

Aquele gosto amargo do teu corpo
Ficou na minha boca por mais tempo
De amargo e então salgado ficou doce,
Assim que o teu cheiro forte e lento
Fez casa nos meus braços e ainda leve
E forte e cego e tenso fez saber
Que ainda era muito e muito pouco.

Faço nosso o meu segredo mais sincero
E desafio o instinto dissonante.
A insegurança não me ataca quando erro
E o teu momento passa a ser o meu instante.
E o teu medo de ter medo de ter medo
Não faz da minha força confusão
Teu corpo é meu espelho e em ti navego
E sei que tua correnteza não tem direção.

Mas, tão certo quanto o erro de ser barco
A motor e insistir em usar os remos,
É o mal que a água faz quando se afoga
E o salva-vidas não está porque
não o vemos

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ROMÂNTICOS
Vander Lee

Românticos são poucos 
Românticos são loucos desvairados
Que querem ser o outro 
Que pensam que o outro é o paraíso
Românticos são lindos
Românticos são limpos e pirados
Que choram com baladas
Que amam sem vergonha e sem juízo
São tipos populares que vivem pelos bares
E mesmo certo vão pedir perdão
E passam a noite em claro
Conhecem o gosto raro
De amar sem medo de outra desilusão
(Romântico é uma espécie em extinção)

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Domingo, Agosto 15

 

FUTUROS AMANTES
(Chico Buarque de Holanda)               
 
Não se afobe, não 
Que nada é pra já 
O amor não tem pressa 
Ele pode esperar em silêncio 
Num fundo de armário 
Na posta-restante 
Milênios, milênios 
No ar 
E quem sabe, então 
O Rio será 
Alguma cidade submersa 
Os escafandristas virão 
Explorar sua casa 
Seu quarto, suas coisas 
Sua alma, desvãos 

Sábios em vão 
Tentarão decifrar 
O eco de antigas palavras 
Fragmentos de cartas, poemas 
Mentiras, retratos 
Vestígios de estranha civilização 

Não se afobe, não 
Que nada é pra já 
Amores serão sempre amáveis 
Futuros amantes, quiçá 
Se amarão sem saber 
Com o amor que eu um dia 
Deixei pra você

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Sexta-feira, Agosto 13

 
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TÃO SUTILMENTE EM TANTOS BREVES ANOS
(Lya Luft )

Tão sutilmente em tantos breves anos
foram se trocando sobre os muros
mais que desigualdades, semelhanças,
que aos poucos dois são um, sem que no entanto
deixem de ser plurais:
talvez as asas de um só anjo, inseparáveis.
Presenças, solidões que vão tecendo a vida,
o filho que se faz, uma árvore plantada,
o tempo gotejando do telhado.
Beleza perseguida a cada hora, para que não baixe
o pó de um cotidiano desencanto.

Tão fielmente adaptam-se as almas destes corpos
que uma em outra pode se trocar,
sem que alguém de fora o percebesse nunca.

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Quinta-feira, Agosto 12

 
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QUE ESSE AMOR NÃO ME CEGUE NEM ME SIGA
(Hilda Hilst)

Que este amor não me cegue nem me siga. 
E de mim mesma nunca se aperceba. 
Que me exclua de estar sendo perseguida 
E do tormento 
De só por ele me saber estar sendo. 
Que o olhar não se perca nas tulipas 
Pois formas tão perfeitas de beleza 
Vêm do fulgor das trevas. 
E o meu Senhor habita o rutilante escuro 
De um suposto de heras em alto muro. 

Que este amor só me faça descontente 
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas 
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra 
Como só soem ser aranhas e formigas. 

Que este amor só me veja de partida. 

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QUE ME VENHA ESSE HOMEM
(Bruna Lombardi )

Que me venha esse homem 
depois de alguma chuva 
que me prenda de tarde 
em sua teia de veludo 
que me fira com os olhos 
e me penetre em tudo.

Que me venha esse homem 
de músculos exatos 
com um desejo agreste 
com um cheiro de mato 
que me prenda de noite 
em sua rede de braços 
que me perca em seus fios 
de algas e sargaços.

Que me venha com força 
com gosto de desbravar 
que me faça de mata 
pra percorrer devagar 
que me faça de rio 
pra se deixar naufragar.

Que me salve esse homem 
com sua febre de fogo 
que me prenda no espaço 
de seu passo mais louco. 

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TEU CORPO SEJA BRASA
(Alice Ruiz )

teu corpo seja brasa
e o meu a casa
que se consome no fogo

um incêndio basta
pra consumar esse jogo
uma fogueira chega
pra eu brincar de novo

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Gente,
voltou o Site do Arnaldo Antunes...
Vale a pena dar uma zapeada!
www.arnaldoantunes.com.br

Sobre a origem da poesia
Arnaldo Antunes
"12 Poemas para dançarmos" 

A origem da poesia se confunde com a origem 
da própria linguagem.
Talvez fizesse mais sentido perguntar quando 
a linguagem verbal deixou de ser poesia. 
Ou: qual a origem do discurso não-poético,
 já que, restituindo laços mais íntimos entre 
os signos e as coisas por eles designadas, 
a poesia aponta para um uso muito primário
 da linguagem, que parece anterior ao perfil 
de sua ocorrência nas conversas, nos jornais,
nas aulas, conferências, discussões, discursos, 
ensaios ou telefonemas.
Como se ela restituísse, através de um uso 
específico da língua, a integridade entre nome 
e coisa - que o tempo e as culturas do homem 
civilizado trataram de separar no decorrer da história.
A manifestação do que chamamos de poesia hoje 
nos sugere mínimos flashbacks de uma possível 
infância da linguagem, antes que a representação 
rompesse seu cordão umbilical, gerando essas 
duas metades - significante e significado.
Houve esse tempo? Quando não havia poesia 
porque a poesia estava em tudo o que se dizia? 
Quando o nome da coisa era algo que fazia parte 
dela, assim como sua cor, seu tamanho, seu peso? 
Quando os laços entre os sentidos ainda não se 
haviam desfeito, então música, poesia, pensamento, 
dança, imagem, cheiro, sabor, consistência se 
conjugavam em experiências integrais, associadas 
a utilidades práticas, mágicas, curativas, religiosas, 
sexuais, guerreiras? Pode ser que essas suposições 
tenham algo de utópico, projetado sobre um passado 
pré-babélico, tribal, primitivo. Ao mesmo tempo, 
cada novo poema do futuro que o presente alcança cria, 
com sua ocorrência, um pouco desse passado.
Lembro-me de ter lido, certa vez, um comentário 
de Décio Pignatari, em que ele chamava a atenção 
para o fato de, tanto em chinês como em tupi, 
não existir o verbo ser, enquanto verbo de ligação. 
Assim, o ser das coisas ditas se manifestaria 
nelas próprias (substantivos), não numa partícula 
verbal externa a elas, o que faria delas línguas 
poéticas por natureza, mais propensas à composição 
analógica. Mais perto do senso comum, podemos 
atentar para como colocam os índios americanos 
falando, na maioria dos filmes de cowboy - Eles dizem 
"maçã vermelha", "água boa", "cavalo veloz"; 
em vez de "a maçã é vermelha", "essa água é boa", 
"aquele cavalo é veloz". Essa forma mais sintética, 
telegráfica, aproxima os nomes da própria existência - 
como se a fala não estivesse se referindo àquelas 
coisas, e sim apresentando-as (ao mesmo tempo 
em que se apresenta). No seu estado de língua, 
no dicionário, as palavras intermediam nossa relação 
com as coisas, impedindo nosso contato direto com elas. 
A linguagem poética inverte essa relação pois vindo 
a se tornar, ela em si, coisa, oferece uma via de 
acesso sensível mais direto entre nós e o mundo.
Segundo Mikhail Bakhtin, (em "Marxismo e 
Filosofia da Linguagem") "o estudo das línguas 
dos povos primitivos e a paleontologia contemporânea 
das significações levam-nos a uma conclusão acerca 
da chamada 'complexidade' do pensamento primitivo. 
O homem pré-histórico usava uma mesma e única 
palavra para designar manifestações muito diversas, 
que, do nosso ponto de vista, não apresentam 
nenhum elo entre si. Além disso, uma mesma e 
única palavra podia designar conceitos diametralmente 
opostos: o alto e o baixo, a terra e o céu, o bem e o mal, 
etc". Tais usos são inteiramente estranhos à linguagem 
referencial, mas bastante comuns à poesia, que elabora 
seus paradoxos, duplos sentidos, analogias e ambiguidades 
para gerar novas significações nos signos de sempre.
Já perdemos a inocência de uma linguagem plena assim. 
As palavras se desapegaram das coisas, assim como 
os olhos se desapegaram dos ouvidos, ou como a criação 
se desapegou da vida. Mas temos esses pequenos oásis - 
os poemas - contaminando o deserto da referencialidade.

Incluído no libreto do espetáculo -12 Poemas para dançarmos -, 
dirigido por Gisela Moreau, São Paulo.

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NUM MONUMENTO À ASPIRINA
(João Cabral de Melo Neto)

Claramente: o mais prático dos sóis,
o sol de um comprimido de aspirina:
de emprego fácil, portátil e barato,
compacto de sol na lápide sucinta.
Principalmente porque, sol artificial,
que nada limita a funcionar de dia,
que a noite não expulsa, cada noite,
sol imune às leis da meteorologia,
a toda hora em que se necessita dele
levanta e vem (sempre num claro dia):
acende, para secar a aniagem da alma,
quará-la, em linhos de um meio-dia.

Convergem: a aparência e os efeitos
da lente do comprimido de aspirina:
o acabamento esmerado desse cristal,
polido a esmeril e repolido a lima,
prefigura o clima onde ele faz viver
e o cartesiano de tudo nesse clima.
De outro lado, porque lente interna,
de uso interno, por detrás da retina,
não serve exclusivamente para o olho
a lente, ou o comprimido de aspirina:
ela reenfoca, para o corpo inteiro,
o borroso de ao redor, e o reafina.



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AUSÊNCIA
(Vinícuis de Moraes)

Eu deixarei que morra em mim 
o desejo de amar os teus olhos que são doces 
Porque nada te poderei dar 
senão a mágoa de me veres eternamente exausto. 
No entanto a tua presença 
é qualquer coisa como a luz e a vida 
E eu sinto que em meu gesto 
existe o teu gesto e em minha voz a tua voz. 
Não te quero ter porque 
em meu ser tudo estaria terminado. 
Quero só que surjas em mim 
como a fé nos desesperados 
Para que eu possa levar 
uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada 
Que ficou sobre a minha carne 
como nódoa do passado. 
Eu deixarei... 
tu irás e encostarás a tua face em outra face. 
Teus dedos enlaçarão outros dedos 
e tu desabrocharás para a madrugada. 
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, 
porque eu fui o grande íntimo da noite. 
Porque eu encostei minha face 
na face da noite e ouvi a tua fala amorosa. 
Porque meus dedos enlaçaram os dedos 
da névoa suspensos no espaço. 
E eu trouxe até mim a misteriosa essência 
do teu abandono desordenado. 
Eu ficarei só como os veleiros 
nos pontos silenciosos. 
Mas eu te possuirei 
como ninguém porque poderei partir. 
E todas as lamentações do mar, 
do vento, do céu, das aves, das estrelas. 
Serão a tua voz presente, 
a tua voz ausente, a tua voz serenizada. 

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AMOR BASTANTE
(Paulo Leminski)

quando eu vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante

basta um instante
e você tem amor bastante
 



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A NOITE NA ILHA
(Pablo Neruda)

Dormi contigo a noite inteira junto do mar, na ilha. 
Selvagem e doce eras entre o prazer e o sono, 
entre o fogo e a água. 
Talvez bem tarde nossos 
sonos se uniram na altura e no fundo,
em cima como ramos que um mesmo vento move,
embaixo como raízes vermelhas que se tocam. 
Talvez teu sono se separou do meu e pelo mar escuro
me procurava como antes, quando nem existias,
quando sem te enxergar naveguei a teu lado 
e teus olhos buscavam o que agora - pão, 
vinho, amor e cólera - te dou, cheias as mãos, 
porque tu és a taça que só esperava 
os dons da minha vida.
Dormi junto contigo a noite inteira, 
enquanto a escura terra gira com vivos e com mortos, 
de repente desperto e no meio da sombra meu braço
rodeava tua cintura. 
Nem a noite nem o sonho puderam separar-nos.
Dormi contigo, amor, despertei, e tua boca 
saída de teu sono me deu o sabor da terra,
de água-marinha, de algas, de tua íntima vida, 
e recebi teu beijo molhado pela aurora 
como se me chegasse do mar que nos rodeia .



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Domingo, Agosto 8

 
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O Andrézito acordou inspirado!
Não resisti e postei imediatamente!
Beijoca querido!

VIVER NÃO DÓI
(Carlos Drummond de Andrade)

Definitivo, como tudo o que é simples,
nossa dor não advém das coisas vividas, 
mas das coisas que foram sonhadas e
não se cumpriram.
Por que sofremos tanto por amor?
O certo seria a gente não sofrer, 
apenas agradecer por termos conhecido uma
pessoa tão bacana, que gerou 
em nós um sentimento intenso e que nos fez
companhia por um tempo razoável, 
um tempo feliz. Sofremos por quê?
Porque automaticamente esquecemos 
o que foi desfrutado e passamos a sofrer
pelas nossas projeções irrealizadas, 
por todas as cidades que gostaríamos de
ter conhecido ao lado do nosso amor e 
não conhecemos, por todos os filhos
que gostaríamos de ter tido junto 
e não tivemos, por todos os shows e livros
e silêncios que gostaríamos de ter 
compartilhado, e não compartilhamos.
Por todos os beijos cancelados, 
pela eternidade.
Sofremos não porque nosso trabalho 
é desgastante e paga pouco, 
mas por todas as horas livres 
que deixamos de ter 
para conversar com um amigo, 
para namorar.
Sofremos não porque nossa mãe 
é impaciente conosco, mas por todos os
momentos em que poderíamos 
estar confidenciando a ela 
nossas mais profundas angústias 
se ela estivesse interessada 
em nos compreender.
Sofremos não porque nosso time perdeu, 
mas pela euforia sufocada.
Sofremos não porque envelhecemos, 
mas porque o futuro está sendo confiscado
de nós, impedindo assim 
que mil aventuras nos aconteçam, 
todas aquelas com
as quais sonhamos e 
nunca chegamos a experimentar.
Como aliviar a dor do que não foi vivido?
A resposta é simples como um verso:
Se iludindo menos e vivendo mais!!!
A cada dia que vivo, 
mais me convenço de que 
o desperdício da vida está no
amor que não damos, 
nas forças que não usamos, 
na prudência egoísta que nada arrisca, 
e que, esquivando-se do sofrimento, 
perdemos também a felicidade.
A dor é inevitável.
O sofrimento é opcional.


Parla!:
 

"Não te amo mais. 
Estarei mentindo dizendo que 
Ainda te quero como sempre quis. 
Tenho certeza que 
Nada foi em vão. 
Sinto dentro de mim que 
Você não significa nada. 
Não poderia dizer jamais que 
Alimento um grande amor. 
Sinto cada vez mais que 
Já te esqueci! 
E jamais usarei a frase 
EU TE AMO! 
Sinto, mas tenho que dizer a verdade 
É tarde demais..." 

Clarice Lispector

Agora leiam de baixo para cima... 


Parla!:
 

Clarice.

Traços imperfeitos,
Letras desconexas,
Sentimentos impares,
Sonhos estrelados.

Silêncios gritantes,
Gritos silentes,
Relacionamentos inexistentes,
Sorrisos carentes.

Dor em carne viva.
Solidão enraizada.
Pungir do "ser".
Nada em tudo.

Sou personagem de Clarice.

André Luís Oliveira - 23/11/2001.


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Sexta-feira, Agosto 6

 

Uma alma gêmea 
é alguém cujas fechaduras 
coincidem com nossas chaves e 
cujas chaves coincidem 
com nossas fechaduras. 
Quando nos sentimos seguros 
a ponto de abrir as fechaduras, 
surge o nosso eu mais verdadeiro 
e podemos ser completa e 
honradamente quem somos. 
Cada um descobre a melhor 
parte do outro.
(Richard Bach)

Parla!:
 

A PONTE PARA O SEMPRE  
(Richard Bach)

Pensamos às vezes que não restou Um só dragão. 
Não há mais qualquer bravo cavaleiro, 
nem uma única princesa a passear 
por florestas encantadas. 
Pensamos às vezes que a nossa era 
está além das fronteiras, 
além das aventuras. 
Que o destino já passou do horizonte 
e se foram para sempre. 
É um prazer estar enganada. 
Princesas e cavaleiros, 
encantamentos e dragões, 
mistério e aventura... 
não apenas existem aqui e agora, 
mas também continuam a ser tudo 
o que já existiu nesse mundo! 
Em nosso século só mudaram de roupagem. 
As aparências se tornaram tão insidiosas, 
que princesas e cavaleiros 
podem se esconder um dos outros, 
podem se esconder até de si mesmos. 
Contudo, os mestres da realidade, 
ainda nos encontram em sonhos para dizer 
que nunca perdemos o escudo 
de que precisamos contra os dragões, 
que uma descarga de fogo azul 
nos envolve agora, 
a fim de que possamos mudar 
o mundo como desejarmos. 
A intuição sussurra a verdade!
Não somos poeira, somos magia! 
Feche os olhos e siga sua intuição.

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Quinta-feira, Agosto 5

 

Fala sério...
De repente abro meu e-mail
e me deparo
com esse texto liiiiiiiiiindo!!!!
Não dá né,Clau?
Beijoca prá vc!

PARAREALIDADE

acontece que não me canso 
dos traços mínimos que desenham teu rosto
das tantas palavras tuas que me faltam aos ouvidos 
e das linhas que
inexistem teus escritos
tudo, menos o silencio, tudo, 
menos o que você não diz
o ombro arqueado espera risadas que,  
talvez um dia, levantarão vôo
escapando entre os vãos dos dedos, 
das portas e dos espaços de pouco mobília

quase não a vejo mais 
e plano jururu percorrendo o final do inverno 
no quintal
dessa caixa de fábula e clareza  
meu passo bate rumo às torres
sapatos transparentes, 
cristal e romã deserdados estranhamente
rasgam-me o escudo 
tal como um lado do sol 
se pondo por detrás do muro
como cartas ausentes 
amarelecidas deixadas por dias 
e todas as palavras
em teus braços

na ausência das flores 
claras extraídas do chão 
o papel floresce e 
a caneta cobalto decanta
bilhetes em garrafas perdidas 
na água deixam-se engolir, 
tantas garrafas e
tanto mar por vir

não me canso, 
talvez um dia me encontre 
com teus grandes olhos pardos
escuros 
mesmo que pelo instante 
em que a pólvora do fósforo  
alumie e parta logo
enquanto não chego
remota e legítima possibilidade 
de um dia qualquer sobriamente te ver
sem leme, 
sem ponto, 
sem porto,
sem pouco.

(Claudemir Ferreira)



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Quarta-feira, Agosto 4

 
Parla!:
 


BLADE RUNNER WALTZ
(Paulo Leminsk

Em mil novecentos e oitenta e sempre,
ah, que tempos aqueles, dançamos ao luar, ao som da valsa
A Perfeição do Amor Através da Dor e da Renúncia, 
nome, confesso, um pouco longo,
mas os tempos, aquele tempo,
ah, não se faz mais tempo como antigamente
Aquilo sim é que eram horas, dias enormes, semanas anos,
minutos milênios,
e toda aquela fortuna em tempo
a gente gastava em bobagens, amar, sonhar, dançar 
ao som da valsa,
aquelas falsas valsas de tão imenso nome lento
que a gente dançava em algum setembro
daqueles mil novecentos e oitenta e sempre

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LUA ADVERSA
(Cecília Meireles)

Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha

Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.

E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém 
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...

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Parla!:
 


O VALE DA INQUIETUDE
(Edgar Allan Poe)

Dantes, silente vale sorria.
Era um vale onde ninguém vivia.
Haviam todos partido em guerra,
deixando os doces olhos de estrelas
noturnamente velarem pelas
flores formosas daquela terra,
em cujos braços, dia após dia,
a luz vermelha do sol dormia.
Não há viajante que, hoje, não fale
sobre a inquietude do triste vale.
Lá, agora, tudo é só movimento,
exceto os ares, pesando, adustos,
nas soledades de encantamento.
Ah! nenhum vento move os arbustos
que vibram como as ondas geladas
em torno às Hébridas enevoadas!
Ah! nenhum vento essas nuvens guia,
murmurejantes, nos céus insanos,
e que se arrastam, por todo o dia,
sobre violetas, que alguém diria
serem milhares de olhos humanos,
e sobre lírios, de haste pendida,
chorando em tumba desconhecida,
tremendo; e sempre caem, com o perfume,
gotas de orvalho do flóreo cume,
chorando; e desce, nas hastes frias,
um pranto eterno de pedrarias.


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FOLHAS DE ROSA
(Florbela Espanca)

Todas as prendas que me deste, um dia,
Guardei-as, meu encanto, quase a medo,
E quando a noite espreita o pôr- do- sol,
Eu vou falar com elas em segredo...

E falo-lhes d`amores e de ilusõs,
Choro o rio com elas, mansamente...
Pouco a pouco o perfume do outrora
Flutua em volta delas, docemente...

Pelo copinho de cristal e prata
Bebo uma saudade estranha e vaga
Uma saudade imensa e infinita
Que, triste, me deslumbra e m`embriaga.

O espelho de prata cinzelada,
A doce oferta que eu amava tanto,
Que refletia outrora tantos risos,
E agora reflete apenas pranto,

E o colar de pedras preciosas,
De lágrimas e estrelas constelado,
Resumem em seus brilhos o que tenho
De vago e de feliz no meu passado...

Mas de todas as prendas, a mais rara,
Aquela que mais fala à fantasia,
São as folhas daquela rosa branca
Que a meus pés desfolhastes, aquele dia...




Parla!:
 


QUE ESTE AMOR NÃO ME CEGUE NEM ME SIGA
(Hilda Hilst)

Que este amor não me cegue nem me siga.
E de mim mesma nunca se aperceba.
Que me exclua de estar sendo perseguida
E do tormento
De só por ele me saber estar sendo.
Que o olhar não se perca nas tulipas
Pois formas tão perfeitas de beleza
Vêm do fulgor das trevas.
E o meu Senhor habita o rutilante escuro
De um suposto de heras em alto muro.
Que este amor só me faça descontente
E farta de fadigas. E de fragilidades tantas
Eu me faça pequena. E diminuta e tenra
Como só soem ser aranhas e formigas.
Que este amor só me veja de partida.


Parla!:
 

CANÇÃO
(William Blake)

De campo em campo errava eu docemente,
Provando todo o orgulho do verão,
Até que, a deslizar na luz do sol,
Do Príncipe do Amor tive a visão!

Mostrou-me lírios para meus cabelos,
Rosas coradas para minha testa;
Guiou-me pelos seus jardins formosos
Onde cultiva uma dourada festa.

Molha-me as asas o rocio de maio,
Febo me insufla o estro vocal que evola;
Com sua rede de seda ele me apanha,
E no outro prende-me de sua gaiola.

Agrada-lhe sentar-se e ouvir meu canto,
Depois brinca comigo, e zomba, e ri;
Depois, abrindo as asas minhas de outro,
Mofa da liberdade que perdi.

Parla!:
 


TUTTO È SCIOLTO
(James Joyce)

Céu sem pássaro, pôr-do-mar, uma estrela solitária
A oeste invadindo,
Como te vem, coração apaixonado, à memória
O amor tênue e longínquo.

O ar suave dos jovens olhos límpidos, e fronte sem malícia,
O cabelo a exalar
Fragrância ao cair como cai, agora, quando tudo silencia, 
O crepúsculo do ar.

Por que então, ao evocar o modo esquivo, 
Doces tentações, o teu lamento vem, 
Se o amor que ela te deu com um suspiro
Era teu, de mais ninguém?


Parla!:

Domingo, Agosto 1

 
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A LUA NO CINEMA
(Paulo Leminski)

   A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
   a história de uma estrela
que não tinha namorado.

   Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
   dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!

   Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava pra ela,
   e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.

   A lua ficou tão triste
com aquela história de amor,
   que até hoje a lua insiste:
- Amanheça, por favor! 


Parla!:
 

"Encontro em minha vida milhares de corpos; 
desses milhares, posso desejar algumas centenas; 
mas dessas centenas, amo apenas um. 
O outro de que estou enamorado me designa 
a especialidade de meu desejo. (...) 
Foram necessários muitos acasos, 
muitas coincidências surpreendentes
(e talvez muitas pesquisas) 
para que eu encontrasse a Imagem que, 
entre mil, conviesse a meu desejo. 
Este é um grande enigma do qual 
jamais descobrirei a chave: por que desejo Fulano? 
Por que o desejo duravelmente, langorosamente?

in: Fragmentos de um Discurso Amoroso
Roland Barthes
www.artepaubrasil.com.br


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Importaria 
se de repente
eu invadisse sua privacidade
com essa ousadia pós adolescente
de desejo, loucura e ansiedade?

Claudia Garrocini 

Parla!:
 
Parla!:
 

SEU SOM

Não vá antes de me mostrar a lua
Nem me deixe sem saber de você
Do que você gosta e faz
Do que quer boscar enfim,
Quem sabe cê não busca por mim?

Que danço calada entre as madrugadas frias
Esperando você chegar
Quero você perto de mim
Bem perto onde eu possa sentir
Sua respiração, seu beijo, seu cheiro, seu som.

Não vá ainda você sabe que eu sou sua
Mas é você quem tem que saber
Da falta que você faz,
Talvez se você decidir
Quem sabe não decide por mim?

Que sofro calada entre as noites vazias
Com medo de vir me falar 
Que precisa de mim
Que você quer sentir
Minha respiração, meu beijo, meu cheiro, meu som.

Claudia Garrocini

Parla!:
 

Parece que o tempo não passa
que as coisas não mudam
uma redoma me envolve.
Ouço as mesms canções
que sei cantar de cor
e passo a noite embriagada
sentindo o vento me tocar.

Parece que parei no meio
e voltei pro começo
sem ter visto o fim.
As peças ficaram perdidas
no xadrez da minh'alma.
Flutuam no ar
todos os mesmos conceitos.
Eu preciso quebrar o ritmo
vencer o vício
quebrar o rito
o vidro
voar para casa...

Claudia Garrocini

Parla!:
 


Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres. 
Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo! 

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme. 

(Fernado Pessoa)

Parla!:
 
Parla!:
 

Se eu te pudesse dizer
O que nunca te direi,
Tu terias que entender
Aquilo que nem eu sei. 

(Fernando Pessoa)

Parla!:
 



ESTRELA PERIGOSA
Clarisse Lispector

Estrela perigosa
Rosto ao vento
Marulho e silêncio
leve porcelana
templo submerso
trigo e vinho
tristeza de coisa vivida
árvores já floresceram
o sal trazido pelo vento
conhecimento por encantação
esqueleto de idéias
ora pro nobis
Decompor a luz
mistério de estrelas
paixão pela exatidão
caça aos vagalumes.
Vagalume é como orvalho
Diálogos que disfarçam conflitos por explodir
Ela pode ser venenosa como às vezes o cogumelo é.

No obscuro erotismo de vida cheia
nodosas raízes.
Missa negra, feiticeiros.
Na proximidade de fontes,
lagos e cachoeiras
braços e pernas e olhos,
todos mortos se misturam e clamam por vida.
Sinto a falta dele
como se me faltasse um dente na frente:
excrucitante.
Que medo alegre,
o de te esperar.


 

 
   
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