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Parla!:
Quinta-feira, Setembro 30
Parla!:
Parla!:
Hoje tenho a sensação
de que a libido está em alta
o friozinho ajuda...
por isso as poesias
têm essa cara...
CONCAVIDADE
Claudia Garrocini
QUANDO
SEUS
LÁBIOS
TOCAREM
AS
CURVAS
MAIS
CONVEXAS
DO
MEU
CORPO
ESTAREI
DE
NOVO
FAZENDO
AMOR
COM
OS
DEUSES...
Parla!:
NUA
Isabel Machado
Porque me despes completamente
sem que eu nem perceba...
E quando nua
por incrível que pareça
sou mais pura...
Porque vou ao teu encontro
despojada de critérios...
liberto os mistérios
sem perder o encanto
do prazer...
Porque
quando nua
sou única
e exclusivamente
tua...
Parla!:
EROS É A ÁGUA
Gioconda Belli
Tradução de José Agostinho Baptista
Entre as tuas pernas
o mar revela-me estranhos recifes
rochas erguidas corais altaneiros
contra a minha gruta de búzios concha nácar
o teu molusco de sal persegue a corrente
a pequena água inventa-me barbatanas
mar da noite com luas submersas
tua ondulação brusca de polvo congestionado
acelera nas minhas guelras um latejar de esponja
e os cavalos minúsculos flutuam entre gemidos
enredados em longos pistilos de medusa.
Amor entre golfinhos
aos altos lança-te sobre o meu flanco leve
recebo-te sem ruído olho-te entre bolhas
cerco o teu riso com a minha boca espuma
ligeireza da água oxigênio de tua vegetação de clorofila
a coroa de lua abre espaço ao oceano.
Dos olhos prateados
flui longo olhar final
e erguemo-nos do corpo aquático
somos carne outra vez
uma mulher e um homem
entre as rochas.
Parla!:
FECUNDAÇÃO
Gilka Machado
Teus olhos me olham
longamente,
imperiosamente...
de dentro deles teu amor me espia.
Teus olhos me olham numa tortura
de alma que quer ser corpo,
de criação que anseia ser criatura
Tua mão contém a minha
de momento a momento:
é uma ave aflita
meu pensamento
na tua mão.
Nada me dizes,
porém entra-me a carne a persuasão
de que teus dedos criam raízes
na minha mão.
Teu olhar abre os braços,
de longe,
à forma inquieta de meu ser;
abre os braços e enlaça-me toda a alma.
Tem teu mórbido olhar
penetrações supremas
e sinto, por senti-lo, tal prazer,
há nos meus poros tal palpitação,
que me vem a ilusão
de que se vai abrir
todo meu corpo
em poemas.
Parla!:
DESTINO
Eugénia Tabosa
No passeio junto à praia,
do outro lado da estrada
duas mulheres de negro
caminham apressadas,
o vento fá-las dobrar
as saias parecem asas
debatendo-se no ar.
Do outro lado da estrada
no passeio junto ao mar
duas mulheres gemendo
parecem quase voar,
na cabeça lenços pretos
encobrem-lhes o olhar,
as mãos apertam o peito
pra o coração não estalar.
O vento uiva mais alto
trazendo gritos da praia
um espanto para lá do mar,
elas correm, como correm
nem a água as faz parar
procuram cegas os barcos
e nada há que encontrar.
Só então abrem os braços
erguendo o punho ao ar
gritam de revolta e dor,
soltam seu ódio, seu mal,
chamam, choram de amor,
e as lágrimas abrem sulcos
naqueles rostos desfeitos.
Desceu um silêncio à praia
era a morte a passear
por entre gaivotas feridas
todas de negro vestidas
olhos presos no mar.
Parla!:
Quarta-feira, Setembro 29
Parla!:
Parla!:
É engraçado como
fazemos parte da história.
Colecionamos sentimentos
reconhecemos personagens
estamos atentos
aos desejos secretos
da nossa geração.
Vez ou outra sinto
como a evolução tecnológica
ameaça nosso mais
profundo sonho juvenil.
Nossos ídolos
envelhecem
a olhos vistos.
E não deixam de ser pessoas especiais.
Como nós, que acreditamos...
Para essa geração,
uma beijoca bem gostosa
e um pouco do nosso
rock nacional!
Parla!:
EU QUERO SEMPRE MAIS
(IRA!/Edgar Scandurra)
A minha vida, eu preciso mudar todo o dia
Pra escapar da rotina dos meus desejos por seus beijos.
Dos meus sonhos eu procuro acordar e perseguir meus sonhos.
Mas a realidade que vem depois não é bem aquela que planejei
Eu quero sempre mais
Eu quero sempre mais
Eu quero sempre mais de ti
Por isso hoje estou tão triste
Porque querer está tão longe de poder
E quem eu quero está tão longe, longe de mim
Longe de mim
Parla!:
CARAS COME EU
(Titãs)
Caras como eu
Estao ficando raros
Como cabelos ralos
Que se batem e caem
pelo chão
Caras como eu
Estao tirando o pé
Andando em marcha-ré
Com medo de entrar na
contramão
Como trens do interior
Que nao chegam no
horário
Como velhos elefantes
Que morrem solitários
Caras como eu
Estao ficando chatos
Como solas de sapatos
Que se gastam
Com o passar do tempo
Nao vou mais medir o tempo
Nao vou mais contar as horas
Vou me entregar no momento
Nao vou mais tentar matar
o tempo
Como palavras de amor
Que nao se guardam em
disquetes
Como segredos sem valor
Que a gente nunca esquece
Caras como eu
Estao ficando velhos
Calcando os seus chinelos
Concluindo que não há
mais tempo
Parla!:
A PALAVRA CERTA
(Paralamas do Sucesso)
Atravesso a noite com um verso
Que não se resolve
Na outra mão as flores como se
Flores bastassem
Eu espero...
E espero...
Não funcionam luzes, telefones
Nada se resolve
Trens parados, carros enguiçados
Aviões no pátio esperam
E esperam
A chave que abre o céu
Daonde caem as palavras
A palavra certa
Que faça o mundo andar
Não funcionam luzes, telefones
Nada se resolve
Trens parados, carros enguiçados
Aviões no pátio esperam
E esperam
A chave que abre o céu
Daonde caem as palavras
A palavra certa
Que faça tudo andar
Parla!:
O André tá voltando...
e para dizer isso mandou esse primor!
Que saudade!
O SEGREDO ESTÁ NO TEMPO
Mário Quintana
Com o tempo, você vai percebendo que para ser feliz
com uma outra pessoa
você precisa, em primeiro lugar, não precisar dela.
Percebe também que aquela pessoa que você ama
(ou acha que ama) e que não quer nada com você,
definitivamente, não é o homem/mulher da sua vida.
Você aprende a gostar de você, a cuidar de você e,
principalmente, a gostar de quem também gosta de você.
O segredo é não correr atrás das borboletas...
É cuidar do jardim para que elas venham até você.
No final das contas, você vai achar,
não quem você estava procurando,
mas quem estava procurando por você...
Parla!:
Quarta-feira, Setembro 22
Parla!:
Olha que coisinha linda a Lara mandou!
Beijocas amiga!
Parla!:
PRIMAVERA
Cassiano
Quando o inverno chegar
Eu quero estar junto a ti
Pode o outono voltar
Que eu quero estar junto a ti
Eu, é primavera, te amo
É primavera, te amo meu amor
Trago esta rosa para te dar
Trago esta rosa para te dar
Meu amor
Parla!:
É Primavera!
MITO DE DEMÉTER E CORE
A TERRA MÃE E A FILHA GRÃO
Por Stela Brito - stelabrito@bol.com.br
Conta a Mitologia que quando Plutão
raptou Core, a filha muito amada de
Deméter, a terra sofreu muitas conseqüências.
É que Deméter - deusa e mãe da terra cultivada -
cheia de dor e revolta com a ausência da filha,
retirou-se de suas funções, provocando na terra
uma seca devastadora.
Foi assim que a história se deu: distraia-se a
deusa Core e suas amigas ninfas, no meio de
um campo florido, quando foi vista e de imediato
amada por Plutão, que acabara de ser atingido
por uma seta de Eros.
Ora, Eros apenas atendeu a um pedido da mãe
Afrodite, desejosa de alargar seu império de
Amor até o Hades. Deméter recusou a Plutão
permissão para casar com sua filha, mas o
pretendente não desistiu e pediu ajuda ao
senhor do Olimpo.
Zeus o aconselhou a aguardar uma ocasião
propícia e Plutão suspendeu o assédio,
enquanto arquitetava um plano.
E a oportunidade logo se apresentou,
quando Core e suas amigas passeavam em
um bosque de eterna primavera e águas cristalinas.
A filha de Deméter colhia lírios e violetas quando,
extasiada, percebeu um magnífico narciso à beira
de um lago. Debruçou-se para apanhá-lo, mas eis
que de uma larga fenda aberta na terra surge,
do abismo escuro, um carro de ouro conduzido
por Plutão. A moça é arrebatada pelo senhor
dos Hades, que a transporta para as profundezas
do seu reino. Core grita pedindo socorro, na
esperança de ser salva por Deméter ou talvez
por seu poderoso pai Zeus. Mas a carruagem já
mergulha no seio da terra e ganha o mundo das
sombras.
Core ainda grita. Deméter escuta e corre para o
local de onde veio o som, mas apenas vê a terra
fechar-se sobre o rastro da filha. Agora a deusa
Core pertence ao sombrio Tártaro e nem seu nome
pode conservar. Passa a chamar-se Perséfone.
Deméter, desesperada, vaga dias e noites à
procura da filha. Sobe ao Olimpo, interroga,
ninguém sabe. Procura o sol, que tudo vê, e
pede-lhe que revele quem raptou a sua filha.
Plutão a arrebatou para o seu mundo,
com o concentimento de Zeus, respondeu-lhe
o Sol. Irritada com os irmãos, Deméter abandonou
o monte sagrado e suas funções divinas.
Resolveu permanecer na terra até que lhe
devolvessem a filha. Disfarçada de velha,
dirigiu-se aos Elêusis, onde é convidada pela rainha
Metanira a cuidar do seu filho Demofonte.
A deusa deseja tornar o menino imortal e
passa a realizar, diariamente, o ritual iniciático.
Uma noite Metanira surpreende a deusa no ritual.
Vendo o filho entre as chamas do fogo,
grita desesperada. Deméter interrompe o rito
iniciático e surge em todo o seu esplendor de
deusa. Solicita, então, que lhe ergam um grande
templo, onde ela, pessoalmente, ensinaria seus
ritos aos seres humanos. Depois, recolheu-se
no interior do Santuário, consumida pela saudade
da filha Perséfone. Tal era a sua dor e revolta, que
recusou-se a continuar protegendo as plantações
e colheitas.
A terra estava estéril e as plantações morriam.
A fome se alastrava. Vendo que a ordem do mundo
estava ameaçada, Zeus manda mensageiros a
Deméter, pedindo-lhe que retorne ao Olimpo.
Ela impõe a condição de devolverem-lhe a filha,
para só então voltar ao convívio dos deuses e
restabelecer a vida da vegetação.
Zeus pede a Plutão que devolva Perséfone.
Plutão consente, mas antes de fazê-lo,
o senhor do Hades, habilmente, induziu a
esposa a comer uma semente de romã,
o que a impedia de deixar a "outra vida".
Ela não conhecia a regra: quem comesse
qualquer coisa no Tártaro, devia sempre retornar.
Chegou-se, assim, a um consenso:
Perséfone deveria passar com o esposo quatro
meses do ano e as duas outras partes ficaria com a
mãe e no convívio dos deuses.
Feliz com o retorno da filha, Deméter dirigia-se para
o Olimpo em sua companhia. A seus passos,
os campos ressecados umedecem e fertilizam-se.
As folres voltam a desabrochar, toda a natureza
fica em festa.
Antes de voltar ao Olimpo, porém, a augusta deusa
ensinou todos os seus rituais ao rei Céleo e a seu
filho Triptólemo. Estavam instruídos nos Mistérios
dos Elêusis. No Santuário dos Elêusis, a deusa
é proclamada a "maior fonte de riqueza e alegria".
Recuperando, por dois terços do ano, a companhia
de Perséfone, a deusa devolveu o grão da vida,
que em sua dolorosa ira havia escondido.
Deméter, assim, é a Terra-mãe, a matriz universal,
a mãe do grão e sua filha, Core, o grão mesmo
do trigo, alimento e semente que, escondida por
certo tempo no seio da terra, dela novamente brota
em novos rebentos.
Parla!:
Terça-feira, Setembro 21
Parla!:
Parla!:
TEMPO
(Claudia Garrocini)
O tempo foge por entre meus dedos
O caminho se perde sob meus pés
O destino me acena ao longe
E não posso ver com clareza
Meu sonho se confunde com sua existência
Meu mundo se perde em seu silêncio
Tua voz estremece minha alma
Um recado deixado
Um sorriso
Um toque
E essa amizade que não evolui num beijo
DISCUTIR MUSICALIDADE
(Claudia Garrocini)
Ouvir o tempo
O pulsar do momento
Lento
Ter de novo a sensação
Ecoando nos ouvidos
Que o encantamento
Apenas começou
Ainda num toque
Suave e contínuo
Dos dedos ao violão
Do espaço e da emoção
Escutar de repente
Um som que te leva para casa
Um tom que não passa
Uma canção qualquer
Que toca de leve
A pele
O tímpano
O sentimento.
Parla!:
As vezes as pessoas ficam confusas.
comigo não é diferente
hoje mudei o template do blog
perdi muito do que tinha feito
que vou implorar
para alguém me ajudar
a recuperar...
Gostei de ter mudado,
ainda não é o que queria
mas pelo menos consegui
colocar de novo o contador.
Hoje foi um dia muito especial...
Parla!:
Parla!:
AMOR PLATONICO
Legião Urbana
Eu sou apenas alguem
ou ate mesmo ninguem
talvez alguem invisivel
que a admira a distancia
sem a menor esperanca
de um dia tornar-me visivel
e voce?
voce e o motivo
do meu amanhecer
e a minha angustia
ao anoitecer
voce e o brinquedo caro
e eu a crianca pobre
o menino solitario que quer ter o que nao pode
dono de um amor sublime
mas culpado por quere-la
como quem a olha na vitrine
mas jamais podera te-la
eu sei de todas as suas tristezas
e alegrias
mas voce nada sabes
nem da minha fraqueza
nem da minha covardia
nem sequer que eu existo
e como um filme banal
entre o figurante e a atriz principal
meu papel era irrelevante
para contracenar
no final
Parla!:
FADAS
Luiz Melodia
Devo de ir fadas
Inseto voa inseto sem direção
Meu bem te vi nada
ou fada borboleta ou fada canção
as ilusões fartas
na fada com varinha virei condão
rabo de pipa olho de vidro
pra suportar uma costela de Adão ..Repete
um toque de sonhar sozinho
te leva em qualquer direção
de flauta remo ou moinho
Parla!:
FOI UM BEIJO...
Martha Medeiros
foi um beijo onde não importava a boca
só tuas mãos quentes me apertando pelas costas
nada estava acontecendo na minha frente
e a ansiedade que havia não era pouca
teus dedos perguntavam pra minha blusa
se meu corpo acolheria um delinqüente
descoladas as línguas um instante
minha resposta saiu um tanto rouca
Parla!:
Segunda-feira, Setembro 20
Parla!:
Gente,
depois da pneumotorax estou de volta
com uma saudade especial de um francano
que não vejo há tempo e que queria muito
poder abraçar...
Como a distância
momentaneamente me impede,
fica aqui um tanto de música
que eu queria lhe cantar.
Beijocas!
ESTRELA
Gilberto Gil
Há de surgir
Uma estrela no céu
Cada vez que ocê sorrir
Há de apagar
Uma estrela no céu
Cada vez que ocê chorar
O contrário também
Bem que pode acontecer
De uma estrela brilhar
Quando a lágrima cair
Ou então
De uma estrela cadente se jogar
Só pra ver
A flor do seu sorriso se abrir
Hum!
Deus fará
Absurdos
Contanto que a vida
Seja assim
Sim
Um altar
Onde a gente celebre
Parla!:
EU TE AMO
Chico Buarque
Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir
Se, ao te conhecer
Dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir
Se nós nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir
Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu
Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu
Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios inda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair
Não, acho que estás te fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir.
Parla!:
FICO ASSIM SEM VOCÊ
Adriana Calcanhotto
Avião sem asa
Fogueira sem brasa
Sou eu assim sem você
Futebol sem bola
Piu-piu sem Frajola
Sou eu assim sem você
Porque que é que tem que ser assim?
Se o meu desejo não tem fim
Eu te quero todo instante
Nem mil auto-falantes
Vão poder falar por mim
Amor sem beijinho
Buchecha sem Claudinho
Sou eu assim sem você
Circo sem palhaço
Namoro sem amasso
Sou eu assim sem você
Tô louca pra te ver chegar
Tô louca pra te ter nas mãos
Deitar no teu abraço
Retomar o pedaço
Que falta no meu coração
Eu não existo longe de você
E a solidão é o meu pior castigo
Eu conto as horas pra poder te ver
Mas o relógio tá de mal comigo
Por quê? Por quê?
Neném sem chupeta
Romeu sem Julieta
Sou eu assim sem você
Carro sem estrada
Queijo sem goiabada
Sou eu assim sem você
Porque que é que tem que ser assim?
Se o meu desejo não tem fim
Eu te quero a todo instante
Nem mil auto-falantes
Vão poder falar por mim
Eu não existo longe de você
E a solidão é o meu pior castigo
Eu conto as horas pra poder te ver
Mas o relógio tá de mal comigo
Parla!:
VALE QUANTO PESA
Luiz Melodia
Quanto você ganha pra me enganar
Quanto você paga pra me ver sofrer
É quanto você força pra me derreter
Sou forte feito cobra coral
Semente brota em qualquer local
Um velho novo cartão postal, cartão postal
Aquela madrugada deu em nada, deu em muito, deu em sol
Aquele seu desejo me deu medo, me deu força, me deu mal
Ai de mim, de nós dois
Ai de mim, de nós dois
Vale quanto pesa, reza a lesa de nós dois
Ai de mim, de nós dois
Temos um passado já marcado não podemos mentir
Beijos demorados afirmados não podemos mentir
Parla!:
GOTAS DE SAUDADE
Luiz Melodia
Vai chegar a chuva, a chuva
Molha as minhas mãos
Gotas de saudade de uma paixão
Vem chegando a chuva, a chuva
Molha as minhas mãos
Vozes do passado vem do coração
Nem a distância dos rios
Que correm pro mar
Nem a força do dragão me fará hesitar
Com a distância dos dias que o tempo fará
O sol seu calor, meu amor, vem me guiar, ou não...
Leiloei meu coração
Pra de longe você ver
Não é mais chuva de verão
Pensei em você....
Parla!:
Quarta-feira, Setembro 15
Nada sério...
Parla!:
MILÁGRIMAS
(Alice Ruiz e Itamar Assumpção)
em caso de dor ponha gelo
mude o corte de cabelo
mude como modelo
vá ao cinema dê um sorriso
ainda que amarelo, esqueça seu cotovelo
se amargo foi já ter sido
troque já esse vestido
troque o padrão do tecido
saia do sério deixe os critérios
siga todos os sentidos
faça fazer sentido
a cada mil lágrimas sai um milagre
caso de tristeza vire a mesa
coma só a sobremesa coma somente a cereja
jogue para cima faça cena
cante as rimas de um poema
sofra penas viva apenas
sendo só fissura ou loucura
quem sabe casando cura ninguém sabe o que procura
faça uma novena reze um terço
caia fora do contexto invente seu endereço
a cada mil lágrimas sai um milagre
mas se apesar de banal
chorar for inevitável sinta o gosto do sal do sal do sal
sinta o gosto do sal
gota a gota, uma a uma
duas três dez cem mil lágrimas
sinta o milagre
a cada mil lágrimas sai um milagre
cante as rimas de um poema
sofra penas viva apenas
sendo só fissura ou loucura
quem sabe casando cura ninguém sabe o que procura
faça uma novena reze um terço
caia fora do contexto invente seu endereço
a cada mil lágrimas sai um milagre
Parla!:
Um pouco de Neruda...
Tu eras também uma pequena folha
que tremia no meu peito.
O vento da vida pôs-te ali.
A princípio não te vi: não soube
que ias comigo,
até que as tuas raízes
atravessaram o meu peito,
se uniram aos fios do meu sangue,
falaram pela minha boca,
floresceram comigo.
É assim que te quero, amor,
assim, amor, é que eu gosto de ti,
tal como te vestes
e como arranjas
os cabelos e como
a tua boca sorri,
ágil como a água
da fonte sobre as pedras puras,
é assim que te quero, amada,
Ao pão não peço que me ensine,
mas antes que não me falte
em cada dia que passa.
Da luz nada sei, nem donde
vem nem para onde vai,
apenas quero que a luz alumie,
e também não peço à noite explicações,
espero-a e envolve-me,
e assim tu pão e luz
e sombra és.
Chegastes à minha vida
com o que trazias,
feita
de luz e pão e sombra, eu te esperava,
e é assim que preciso de ti,
assim que te amo,
e os que amanhã quiserem ouvir
o que não lhes direi, que o leiam aqui
e retrocedam hoje porque é cedo
para tais argumentos.
Amanhã dar-lhes-emos apenas
uma folha da árvore do nosso amor, uma folha
que há-de cair sobre a terra
como se a tivessem produzido os nosso lábios,
como um beijo caído
das nossas alturas invencíveis
para mostrar o fogo e a ternura
de um amor verdadeiro.
Parla!:
Quinta-feira, Setembro 9
Parla!:
Uma poesia de Smoochy
A minha vida vai mudar
Tento em vão mentalizar-me
Que a minha vida vai mudar
E que deste grande pesadelo
Um dia hei-de acordar
Poderei então ser feliz
E poderei sem medo amar
Não receando conhecer
Por quem me irei apaixonar
Começo a ver que a vida
Não é sonho afinal
E que a realidade é fria
E tem tanto de dura como fatal
Vou ter de me habituar
Neste mundo a viver
Sem grandes ilusões
Para não voltar a sofrer
Apesar de não ser um sonho
A vida também tem felicidade
E tenho tanto direito a ela
Que vou lutar pela minha vontade
Esqueço-me muitas vezes
Que para vencer é preciso lutar
E é o que vou fazer
Se quiser realmente vir a amar
Portanto vou em frente
Com esta minha decisão
Para poder dar lugar
A alguém especial no meu coração
Parla!:
Parla!:
Olh'aí o verbo perpassar na poesia da Cecília...
Um amigo um dia ficou de cara quando usei esse verbo.
Coincidentemente hoje,
quando procurava algo da Cecília Meireles, encontrei
o verbo na sua doçura, entre o tecer de palavras
tão bem feito pela poetisa. Sei que as pessoas
gostam de ler nossas confissões, mas eu tenho
dificuldade de falar sério... A poesia há muito se tornou
minha comunicação com o mundo.
Um beijo para todos
que vêm buscar um 'cadinho de poesia aqui...
Beijoca pro cê Zico!
E agora vamos de Chico!
CECÍLIA
Chico Buarque
Quantos artistas entoam baladas pras suas amadas
Com grandes orquestras
Como os invejo
Como os admiro
Eu, que te vejo e nem quase suspiro
Quantos poetas românticos, prosas
Exaltam suas musas com todas as letras
Eu te murmuro
Eu te suspiro
Eu, que soletro teu nome no escuro
Me escutas, Cecília?
Mas eu te chamava em silêncio
Na tua presença palavras
são brutas pode ser que entreaberto
Meus lábios de leve tremessem por ti
Mas nem as sutis melodias
Merecem, Cecília, teu nome espalhar por aí
Como tantos poetas
Tantos cantores
Tantas Cecílias com mil refletores
Eu, que não digo, mas ardo de desejo
Te olho Te guardo Te sigo Te vejo dormir
Me escutas, Cecília?
Mas eu te chamava em silêncio
Na tua presença palavra são brutas
Pode ser que, entreabertos
Meus lábios de leve tremessem por ti
Mas nem as sutis melodias
Merecem, Cecília, teu nome espalhar por aí
Como tantos poetas
Tantos cantores
Tantas Cecílias com mil refletores
Eu, que não digo, mas ardo de desejo
Te olho Te guardo Te sigo Te vejo
Te olho Te guardo Te sigo Te vejo dormir
Parla!:
BALADA DAS DEZ BAILARINAS DO CASSINO
(Cecília Meireles)
Dez bailarinas deslizam
por um chão de espelho.
Têm corpos egípcios com placas douradas,
pálpebras azuis e dedos vermelhos.
Levantam véus brancos, de ingênuos aromas,
e dobram amarelos joelhos.
Andam as dez bailarinas
sem voz, em redor das mesas.
Há mãos sobre facas, dentes sobre flores
e com os charutos toldam as luzes acesas.
Entre a música e a dança escorre
uma sedosa escada de vileza.
As dez bailarinas avançam
como gafanhotos perdidos.
Avançam, recuam, na sala compacta,
empurrando olhares e arranhando o ruído.
Tão nuas se sentem que já vão cobertas
de imaginários, chorosos vestidos.
A dez bailarinas escondem
nos cílios verdes as pupilas.
Em seus quadris fosforescentes,
passa uma faixa de morte tranqüila.
Como quem leva para a terra um filho morto,
levam seu próprio corpo, que baila e cintila.
Os homens gordos olham com um tédio enorme
as dez bailarinas tão frias.
Pobres serpentes sem luxúria,
que são crianças, durante o dia.
Dez anjos anêmicos, de axilas profundas,
embalsamados de melancolia.
Vão perpassando como dez múmias,
as bailarinas fatigadas.
Ramo de nardos inclinando flores
azuis, brancas, verdes, douradas.
Dez mães chorariam, se vissem
as bailarinas de mãos dadas.
Parla!:
Terça-feira, Setembro 7
Tem gente reclamando por eu não escrever
nada sobre mim... Bom, nunca fui muito boa nisso,
'inda mais quando sei que muitas pessoas lêem...
Hoje quando entrei na Zona e vi o trabalho do Andy, senti
uma vontade enorme de postar seus quadros...
Estou muito feliz com o curso de História da Arte...
Beijo no doido que eu adoro!
 
Parla!:
Segunda-feira, Setembro 6
Parla!:
SEU SOM
(Claudia Garrocini)
Não vá antes de me mostrar a lua
Nem me deixe sem saber de você
Do que você gosta e faz
Do que quer boscar enfim,
Quem sabe cê não busca por mim?
Que danço calada entre as madrugadas frias
Esperando você chegar
Quero você perto de mim
Bem perto onde eu possa sentir
Sua respiração, seu beijo, seu cheiro, seu som.
Não vá ainda você sabe que eu sou sua
Mas é você quem tem que saber
Da falta que você faz,
Talvez se você decidir
Quem sabe não decide por mim?
Que sofro calada entre as noites vazias
Com medo de vir me falar
Que precisa de mim
Que você quer sentir
Minha respiração, meu beijo, meu cheiro, meu som.
Parla!:
Parla!:
SE
(Alice Ruiz)
se por acaso
a gente se cruzasse
ia ser um caso sério
você ia rir até amanhecer
eu ia ir até acontecer
de dia um improviso
de noite uma farra
a gente ia viver
com garra
eu ia tirar de ouvido
todos os sentidos
ia ser tão divertido
tocar um solo em dueto
ia ser um riso
ia ser um gozo
ia ser todo dia
a mesma folia
até deixar de ser poesia
e virar tédio
e nem o meu melhor vestido
era remédio
daí vá ficando por aí
eu vou ficando por aqui
evitando
desviando
sempre pensando
se por acaso
a gente se cruzasse...
Parla!:
Parla!:
A LUA NO CINEMA
(Paulo Leminski)
A lua foi ao cinema,
passava um filme muito engraçado,
a hitória de uma estrela
que não tinha namorado.
Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!
Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava pra ela,
e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.
A lua ficou tão triste
com aquela história de amor,
que até hoje a lua insiste:
-Amanheça, por favor!
Parla!:
O ÚLTIMO POEMA
(Manuel Bandeira)
Assim eu quereria o meu último poema.
Que fosse terno dizendo as coisas mais
simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço
sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores
quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem
os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas
que se matam sem explicação.
Parla!:
MÃOS DADAS
(Carlos Drummond de Andrade)
Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história,
não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem
vista da janela,
não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida,
não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente,
os homens presentes, a vida presente.
Parla!:
AR DE NOTURNO
(Federico Garcia Lorca)
Tenho muito medo
das folhas mortas,
medo dos prados
cheios de orvalho.
eu vou dormir;
se não me despertas,
deixarei a teu lado meu coração frio.
O que é isso que soa
bem longe ?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu !
Pus em ti colares
com gemas de aurora.
Por que me abandonas
neste caminho ?
Se vais muito longe,
meu pássaro chora
e a verde vinha
não dará seu vinho.
O que é isso que soa
bem longe ?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu !
Nunca saberás,
esfinge de neve,
o muito que eu
haveria de te querer
essas madrugadas
quando chove
e no ramo seco
se desfaz o ninho.
O que é isso que soa
bem longe ?
Amor. O vento nas vidraças,
amor meu !
Parla!:
Quinta-feira, Setembro 2
Parla!:
Parla!:
NESTA AUSÊNCIA
Gilka Machado
Nesta ausência que me excita,
tenho-te, à minha vontade,
numa vontade infinita...
Distância, sejas bendita!
Bendita sejas, saudade!
Teu nome lindo...Ao dizê-lo
queimo os lábios, meu amor!
- O teu nome é um setestrelo
na noite da minha dor.
Nunca digas com firmeza
que a mágoa apenas crucia:
a saudade é uma tristeza,
que nos dá tanta alegria!
Passo horas calada e queda,
a rever, a relembrar
as duas asas de seda
do teu langoroso olhar.
Se a mágoa nos não conforta,
por que é que a felicidade
tem mais sabor quando morta,
depois que se faz saudade?
Parla!:
MULHER AO ESPELHO
Cecília Meireles
Hoje que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.
Já fui loura, já fui morena,
já fui Margarida e Beatriz.
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.
Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?
Por fora, serei como queira
a moda, que me vai matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.
Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.
Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.
Parla!:
Menino do tempo e espaço
me prenda no seu abraço
me guarde no fundo do seu olhar
Esse desejo bonito
que mesmo sabendo
do grito
Insiste em metralhar
minha calma
minha alma
meu corpo cheio de sol.
(Claudia Garrocini)
Parla!:
"PEGAR LEVE É VITAL PARA A FELICIDADE"
(Ailin Aleixo é colunista da revista Vip,
onde este artigo foi originalmente publicado)
Gente chata essa, que quer ser séria, profunda, visceral.
Putz, que coisa pentelha.
A vida já é um caos, por que fazermos dela, ainda por cima,
um tratado do Schopenhauer?
Deixe a pungência para as horas em que ela é inevitável:
mortes, separações, dores.
No dia-a-dia, pelo amor de Deus, seja idiota.
Ria dos próprios defeitos, tire sarro de suas inabilidades.
Ignore o que o boçal do seu chefe proferiu.
Pense assim: "Quem tem que carregar aquela cara feia,
todos os dias, inseparavelmente, é ele...Pobre dele."
Milhares de casamentos acabaram-se não pela falta de amor,
dinheiro, sexo, sincronia, mas pela ausência de idiotice.
Quem disse que é bom dividirmos a vida com alguém
que tem conselho pra tudo, soluções sensatas,
objetivos claramente traçados mas não consegue rir quando tropeça?
Que sabe resolver uma crise familiar mas não tem
a menor idéia de como preencher as horas livres
de um fim de semana? Sim, porque é bem comum gente
que fica perdida quando se acabam os problemas.
E daí, o que elas farão se já não têm por que se desesperar?
Em suma: desaprenderam a brincar. Eu não quero alguém
assim comigo. A realidade já é dura; piora se for densa.
Dura e densa, ruim. Brincar é legal. Entendeu?
Esqueça o que te falaram sobre ser adulto,
tudo aquilo de não brincar com comida, não falar besteira,
não ser imaturo, não se descontrolar, não demonstrar
o que sente. É muito não. Dá pra ser feliz com tanto não?
Pagar as contas, ser bem- sucedido, amar, ter filhos -
tarefa brava. Piora, muito, com o peso de todos aqueles nãos.
Tenha fé em uma coisa: dá certo ser adulto e idiota.
Aliás, tudo fica bem mais fácil ser for regado a idiotice, bom humor.
Manuel Bandeira foi um grande homem e um grande poeta.
Disse certa vez: -"E por que essa condenação da piada,
como se a vida fosse só feita de momentos graves
ou só nesses houvesse teor poético?"
Estava certo. Empine pipa!!!
Adultos podem (e devem) contar piadas, ir ao fliperama,
beliscar a bunda da sua mulher, sair pelado pela cozinha.
Ser adulto não é perder os prazeres da vida -
e esse é o único "não" aceitável. Teste a teoria.
Uma semaninha, pra começar. Veja e sinta as coisas
como se elas fossem o que são: passageiras.
A briga, a dívida, a dor, a raiva, tudinho vai passar,
então pra que tanta gravidade?
Já fez tudo o que podia para resolver o problema?
Parou, chorou, pediu arrego? Ótimo, hora da idiotice:
entre na Internet, jogue pebolim, coma um churrasco grego.
Tá numa de empinar pipa no sábado?
Vá. Quer conversar com sua namorada imitando
o Pato Donald mas acha muito boçal? E é, mas e daí ?
Você realmente acha que ela vai gostar menos de você por isso ?
Ela não vai, tenha certeza. Só vai gostar mais,
porque é delicioso estarmos com quem sorri e ri de si mesmo.
Eu fico chateado por não ser tão idiota quanto gostaria;
tenho uma mania horrível de, sem querer, recair na seriedade.
Então o mundo fica cinza e cada lágrima ganha
o peso de uma bigorna. Nessas horas
não preciso de cenhos franzidos de preocupação.
Nessas horas tudo de que preciso é uma bela,
grande e impagável idiotice. Como sair pra jogar
paintball - ou, melhor ainda, me olhar fixamente
no espelho até notar como fico feio
com os olhos vermelhos e o nariz escorrendo.
Como fico ridículo quando esqueço que tudo passa.
Bom mesmo é ter o problema na cabeça,
o sorriso na boca e paz no coração!
Valeu Andrezito! Belo texto!
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Parla!:
POR NÃO ESTAREM DISTRAÍDOS
(Clarice Lispector)
Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos,
a alegria como quando se sente a garganta
um pouco seca e se vê que por admiração
se estava de boca entreaberta:
eles respiravam de antemão o ar que estava à frente,
e ter esta sede era a própria água deles.
Andavam por ruas e ruas falando e rindo,
falavam e riam para dar matéria peso
à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles.
Por causa de carros e pessoas, às vezes eles se tocavam,
e ao toque - a sede é a graça, mas as águas
são uma beleza de escuras -
e ao toque brilhava o brilho da água deles,
a boca ficando um pouco mais seca de admiração.
Como eles admiravam estarem juntos!
Até que tudo se transformou em não.
Tudo se transformou em não quando eles quiseram
essa mesma alegria deles.
Então a grande dança dos erros.
O cerimonial das palavras desacertadas.
Ele procurava e não via,
ela não via que ele não vira,
ela que, estava ali, no entanto.
No entanto ele que estava ali.
Tudo errou, e havia a grande poeira das ruas,
e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam,
sem um sorriso. Tudo só porque tinham prestado atenção,
só porque não estavam bastante distraídos.
Só porque, de súbito exigentes e duros,
quiseram ter o que já tinham.
Tudo porque quiseram dar um nome;
porque quiseram ser, eles que eram.
Foram então aprender que, não se estando distraído,
o telefone não toca, e é preciso sair de casa para
que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca,
o deserto da espera já cortou os fios.
Tudo, tudo por não estarem mais distraídos.
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