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Parla!:
Sexta-feira, Outubro 29
Parla!:
Parla!:
Quando acordei
vi seu sorriso
num restinho de
sonho que ficou
no canto dos olhos...
Sorri com
o sabor do seu beijo
que nem ao menos
pude sentir
antes de cair no sono...
Tenho saudade do seu braço
me envolvendo de leve
num fragmento de segundo
que se eternizou
em meu pensamento.
Kcau
Parla!:
É boa a sensação
de dever cumprido
de começo de
primavera
de sorvete de chocolate...
É bom
olhar para fora
perder-se
aqui dentro
entregar-se
de bandeja
com maçã e tudo...
Então
deleite-se
com esses
pequenos
presentes
que podemos
nos dar!
Kcau
Parla!:
Parla!:
O SEU OLHAR
(Paulo Tatit / Arnaldo Antunes)
o seu olhar lá fora
o seu olhar no céu
o seu olhar demora
o seu olhar no meu
o seu olhar seu olhar melhora
melhora o meu
onde a brasa mora
e devora o breu
onde a chuva molha
o que se escondeu
o seu olhar seu olhar melhora
melhora o meu
o seu olhar agora
o seu olhar nasceu
o seu olhar me olha
o seu olhar é seu
o seu olhar seu olhar melhora
melhora o meu
Parla!:
Danço na lua
quando encontro comigo
sem gravidade
Satélite soberbo
me sinto quebrar
os ritos da razão.
(Kcau)
Parla!:
PERDI
SEU OLHAR
SEU FOGO
DENSO
FOGE
LONGE
FRIO
AGORA
PEDAÇO
DE HORA
ETERNOS
MINUTOS
TEIMAM
EM BRINCAR
DE ESTÁTUA...
Kcau
Parla!:
O menino cresceu...
não me vê mais com
olhos de poesia...
Não tem tempo
para me ligar
de madrugada...
Não me escreve
um bilhete sequer...
O menino cresceu,
deixoude acreditar
na magia...
Kcau
Parla!:
Tenho sentido
que se de
alguma maneira
estou viva
é justamente
por acreditar
nos olhos da alma.
Por ter aprendido
depois de
todos esses anos
esperar...
deixar que
as coisas
se encaixassem...
Tenho sentido
que estou
perto demais
da realização
dos meus sonhos
e o tempo
tem sido generoso
em me deixar
bastante tempo
para passear
de mãos dadas
com você
do outro lado
do planeta...
Kcau
Parla!:
Quinta-feira, Outubro 28
ontem rolou
um eclipse lunar...
pena que Sampa vive
cheia de nuvens
não deu para ver...
mas o jornal mostrou
essa imagem!
Parla!:
Carol, adorei o toque do
blog do Batera!!!
http://www.andrebatera.blogspot.com/
Olha só!
FLORES COM OS OLHOS
(Andre Batera)
Ontem estava transbordando de um amor translúcido,
um amor que não sei compartilhar,
um sentimento que não sei lidar, a não ser com poesia,
um jorro que gostaria de presentear alguém.
Gostaria de poder embrulhar todo esse grito desumano
em uma caixa onde coubessem sonhos e desejos
e dá-lo, livrar-me desse desespero,
desse se assustar consigo mesmo,
desse se arrepelar pelo medo do impulso,
desse errar por se estar certo.
Desistir de enxergar o óbvio obscuro a todos,
renegar todos os dons para ser feliz,
transitar por tantos caminhos possíveis despercebido,
exonerar todos os atos consequentes de sofrimento alheio.
Quero entregar com os olhos todas as flores
que dispensam todos os dias sem vê-las,
quero reviver a extinta fantasia para deixar
a minha em paz, tranquila, lírica...
Parla!:
Até que enfim criou
vergonha na cara
e mandou uma poesia
né Aline? (risos)
A-D-O-R-E-I !!!
COMO CONSEGUIMOS SOBREVIVER?
(Luís Fernando Veríssimo)
Pensando bem, é difícil acreditar que estejamos vivos até
hoje!Quando éramos pequenos, viajávamos de carro,
sem cintos de segurança, sem ABS e sem air-bag!
Os vidros de remédio ou as garrafas de refrigerantes
não tinham nenhum tipo de tampinha especial...
Nem data de validade...E tinham também aquelas
bolinhas de gude... Que vinham embaladas sem
instrução de uso. A gente bebia água da chuva,
da torneira e nem conhecia água engarrafada!
Que horror!
A gente andava de bicicleta sem usar nenhum
tipo de proteção...E passávamos nossas tardes
construindo nossas pipas ou nossos carrinhos
de rolimã. A gente se jogava nas ladeiras e
esquecia que não tinha freios até que não
déssemos de cara com a calçada ou com uma árvore...
E depois de muitos acidentes de percurso,
aprendíamos a resolver o problema... SOZINHOS!
Nas férias, saíamos de casa de manhã e
brincávamos o dia todo; nossos pais às
vezes não sabiam exatamente o perigo.
Não existiam os celulares! Incrível!
A gente procurava encrenca. Quantos
machucados, ossos quebrados e
dentes moles dos tombos!
Ninguém denunciava ninguém...
Eram só "acidentes" de moleques:
na verdade nunca encontrávamos um culpado.
Você lembra destes incidentes: janelas
quebradas, jardins destruídos, as bolas
que caíam no terreno do vizinho ???
Existiam as brigas e, às vezes, muitos
pontos roxos... E mesmo que nos
machucássemos e, tantas vezes,
chorássemos, passava rápido;
na maioria das vezes, nem mesmo nossos
pais vinham a descobrir...
A gente comia muito doce,
pão com muita manteiga...
Mas ninguém era obeso...
No máximo, um gordinho saudável...
Nem se falava em colesterol...
A gente dividia uma garrafa de suco,
refrigerante ou até uma cerveja escondida,
em três ou quatro moleques, e ninguém
morreu por causa de vermes!
Não existia o Playstation, nem o
Nintendo... Não tinha TV a cabo,
nem videocassete, nem Computador,
nem Internet...
Tínhamos, simplesmente, amigos!
A gente andava de bicicleta ou a pé.
Íamos a casa dos amigos,
tocávamos campainha,
entrávamos e conversávamos...
Sozinhos, num mundo frio e cruel...
Sem nenhum controle! Como sobrevivemos?
Inventávamos jogos com pedras, feijões ou cartas...
Brincávamos com pequenos monstros: lesmas,
caramujos, e outros animaizinhos,
mesmo se nossos pais
nos dissessem para não fazer isso!
Os nossos estômagos nunca se encheram
de bichos estranhos! No máximo, tomamos
algum tipo de xarope contra vermes e outros
monstros destruidores... aquele cara com
um peixe nas costas...
(um tal de óleo de fígado de bacalhau).
Alguns estudantes não eram tão inteligentes
quanto os outros, e tiveram que refazer
a segunda série... Que horror!
Não se mudavam as notas e ninguém
passava de ano, mesmo não passando.
As professoras eram insuportáveis!
Não davam moleza...
Os maiores problemas na escola eram:
chegar atrasado, mastigar chicletes na classe
ou andar bilhetinhos falando mal da professora,
correr demais no recreio ou matar aula só pra ficar
jogando bola no campinho...
As nossas iniciativas eram "nossas",
mas as conseqüências também!
Ninguém se escondia atrás do outro...
Os nossos pais eram sempre do lado da
Lei quando transgredíamos as regras!
Se nos comportávamos mal, nossos pais
nos colocavam de castigo e, incrivelmente,
nenhum deles foi preso por isso!
Sabíamos que quando os pais diziam "NÃO",
era "NÃO". A gente ganhava brinquedos no
Natal ou no aniversário, não todas as vezes
que ia ao supermercado... Nossos pais nos davam
presentes por amor,nunca por culpa...
Por incrível que pareça, nossas vidas
não se arruinaram porque não ganhamos
tudo o que gostaríamos, que queríamos...
Esta geração produziu muitos inventores,
artistas, amantes do risco e ótimos
"solucionadores" de problemas... Nos últimos
50 anos, houve uma desmedida explosão
de inovações, tendências...
Tínhamos liberdade, sucessos,
algumas vezes problemas e desilusões,
mas tínhamos muita responsabilidade...
E não é que aprendemos a resolver tudo!!!
E sozinhos...
Se você é um destes sobreviventes...
PARABÉNS!!!
VOCÊ CURTIU OS ANOS
MAIS FELIZES DE SUA VIDA...
Parla!:
Quarta-feira, Outubro 27
LUA ADVERSA
Cecília Meireles
Tenho fases, como a lua
Fases de andar escondida,
fases de vir para a rua...
Perdição da minha vida!
Perdição da vida minha!
Tenho fases de ser tua,
tenho outras de ser sozinha
Fases que vão e que vêm,
no secreto calendário
que um astrólogo arbitrário
inventou para meu uso.
E roda a melancolia
seu interminável fuso!
Não me encontro com ninguém
(tenho fases, como a lua...)
No dia de alguém ser meu
não é dia de eu ser sua...
E, quando chega esse dia,
o outro desapareceu...
 
Parla!:
EXAUSTO
Adélia Prado
Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.
Parla!:
ARARAS VERSÁTEIS
Hilda Hilst
Araras versáteis. Prato de anêmonas.
O efebo passou entre as meninas trêfegas.
O rombudo bastão luzia na mornura das calças e do dia.
Ela abriu as coxas de esmalte, louça e umedecida laca
E vergastou a cona com minúsculo açoite.
O moço ajoelhou-se esfuçando-lhe os meios
E uma língua de agulha, de fogo, de molusco
Empapou-se de mel nos refolhos robustos.
Ela gritava um êxtase de gosmas e de lírios
Quando no instante alguém
Numa manobra ágil de jovem marinheiro
Arrancou do efebo as luzidias calças
Suspendeu-lhe o traseiro e aaaaaiiiii...
E gozaram os três entre os pios dos pássaros
Das araras versáteis e das meninas trêfegas.
  
Parla!:
Sábado, Outubro 23
Parla!:
Parla!:
Se liga na
28ª MOSTRA INTERNACIONAL DE CINEMA!
MACHUCA
Chile, 1973. Gonzalo Infante e Pedro Machuca
são dois garotos de onze anos que vivem em
Santiago. O primeiro, num bairro chique.
O segundo, num humilde povoado ilegal instalado
a poucos metros de distância. Dois mundos
separados por uma muralha invisível que alguns
sonham em derrubar na intenção de construir
uma sociedade mais justa. Um desses sonhadores
é o padre McEnroe, diretor de um colégio
particular de elite. Com a ajuda de outros padres,
ele decide fazer uma integração entre estes dois universos,
abrindo as portas do colégio para os filhos das
famílias do povoado. É assim que Pedro Machuca
vai parar na mesma sala de Gonzalo Infante,
nascendo daí uma amizade plena de descobertas
e surpresas, apesar do clima de enfrentamento
que vive a sociedade chilena na violenta transição
de Allende para Pinochet.
OS SONHADORES
Innocents), dirigido pelo italiano
Bernardo Bertolucci (de O Último Imperador),
também se destaca na programação. Em 1968,
um jovem americano se aproxima de duas irmãs que
vivem uma relação amorosa entre elas.
Quando passam a viver juntos, os três disputam
a atenção um do outro. O longa participou das
seleções oficiais de Sundance, San Sebastian e Venice,
além de ter sido bem recebido pela crítica internacional.
MÁ EDUCAÇÃO
(La Mala Educación). O filme conta a história de dois
garotos que sofrem com a pedofilia quando crianças.
Com vidas que tomaram rumos diferentes, eles se
reencontram anos depois e relembram aquele tempo.
Gael García Bernal está no elenco.
Parla!:
Quarta-feira, Outubro 20
Hoje quero falar de Fernando Pessoa
meu poeta preferido,
que consegue me fazer
expressar o que tenho
sentido...
Parla!:
AUTOPSICOGRAFIA
(Fernando Pessoa)
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
Parla!:
TODAS AS CARTAS DE AMOR SÃO RIDÍCULAS
(Fernando Pessoa)
Todas as cartas de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que são
Ridículas.
(Todas as palavras esdrúxulas,
Como os sentimentos esdrúxulos,
São naturalmente
Ridículas.)
Parla!:
FARÓIS
(Fernando Pessoa)
Faróis distantes,
De luz subitamente tão acesa,
De noite e ausência tão rapidamente volvida,
Na noite, no convés, que conseqüências aflitas!
Mágoa última dos despedidos,
Ficção de pensar ...
Faróis distantes...
Incerteza da vida...
Voltou crescendo a luz acesa avançadamente,
No acaso do olhar perdido...
Faróis distantes...
A vida de nada serve...
Pensar na vida de nada serve...
Pensar de pensar na vida de nada serve...
Vamos para longe e a luz que vem grande vem menos grande.
Faróis distantes ...
Parla!:
CANÇÃO
(Fernando Pessoa)
Silfos ou gnomos tocam?...
Roçam nos pinheirais
Sombras e bafos leves
De ritmos musicais.
Ondulam como em voltas
De estradas não sei onde
Ou como alguém que entre árvores
Ora se mostra ou esconde.
Forma longínqua e incerta
Do que eu nunca terei...
Mal oiço e quase choro.
Por que choro não sei.
Tão tênue melodia
Que mal sei se ela existe
Ou se é só o crepúsculo,
Os pinhais e eu estar triste.
Mas cessa, como uma brisa
Esquece a forma aos seus ais;
E agora não há mais música
Do que a dos pinheirais.
Parla!:
Quarta-feira, Outubro 13
Morreu mais um poeta,
mais um poeta mineiro...
Fica a dor de saber
que a brincadeira com as palavras
vai ficar menos divertida,
fica a dor,
e o pesar por conhecer
tantos, que nem sabem ao certo
quem foi Sabino...
Poeta menino,
vais deixar saudade!
A ÚLTIMA CRÔNICA
Fernando Sabino
A caminho de casa, entro num botequim
da Gávea para tomar um café junto ao
balcão. Na realidade estou adiando o
momento de escrever.
A perspectiva me assusta.
Gostaria de estar inspirado, de coroar
com êxito mais um ano nesta busca
do pitoresco ou do irrisório no cotidiano
de cada um. Eu pretendia apenas recolher
da vida diária algo de seu disperso conteúdo
humano, fruto da convivência, que a faz mais
digna de ser vivida. Visava ao circunstancial,
ao episódico. Nesta perseguição do acidental,
quer num flagrante de esquina, quer nas
palavras de uma criança ou num acidente
doméstico, torno-me simples espectador e
perco a noção do essencial. Sem mais
nada para contar, curvo a cabeça e tomo
meu café, enquanto o verso do poeta se
repete na lembrança: "assim eu quereria
o meu último poema". Não sou poeta e
estou sem assunto. Lanço então um último
olhar fora de mim, onde vivem os assuntos
que merecem uma crônica.
Ao fundo do botequim um casal de pretos
acaba de sentar-se, numa das últimas mesas
de mármore ao longo da parede de espelhos.
A compostura da humildade, na contenção de
gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela
presença de uma negrinha de seus três anos,
laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre,
que se instalou também à mesa: mal ousa
balançar as perninhas curtas ou correr
os olhos grandes de curiosidade ao redor.
Três seres esquivos que compõem em torno
à mesa a instituição tradicional da família,
célula da sociedade.
Vejo, porém, que se preparam para algo
mais que matar a fome. Passo a observá-los.
O pai, depois de contar o dinheiro que
discretamente retirou do bolso,
aborda o garçom, inclinando-se para trás
na cadeira, e aponta no balcão
um pedaço de bolo sob a redoma.
A mãe limita-se a ficar olhando imóvel,
vagamente ansiosa, como se
aguardasse a aprovação do garçom.
Este ouve, concentrado, o pedido do homem
e depois se afasta para atendê-lo.
A mulher suspira, olhando para os lados,
a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali.
A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês.
O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo
com a mão, larga-o no pratinho - um bolo simples,
amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia
triangular. A negrinha, contida na sua expectativa,
olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho
que o garçom deixou à sua frente.
Por que não começa a comer?
Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem
em torno à mesa um discreto ritual.
A mãe remexe na bolsa de plástico
preto e brilhante, retira qualquer coisa.
O pai se mune de uma caixa de fósforos,
e espera. A filha aguarda também,
atenta como um animalzinho.
Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas, minúsculas,
que a mãe espeta caprichosamente na fatia
do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola,
o pai risca o fósforo e acende as velas. Como
a um gesto ensaiado, a menininha repousa o
queixo no mármore e sopra com força,
apagando as chamas.
Imediatamente põe-se a bater palmas,
muito compenetrada, cantando num balbucio,
a que os pais se juntam, discretos:
"Parabéns pra você, parabéns pra você..."
Depois a mãe recolhe as velas, torna a
guardá-las na bolsa. A negrinha agarra
finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas
e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando
para ela com ternura - ajeita-lhe a fitinha no
cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que
lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo
botequim, satisfeito, como a se convencer
intimamente do sucesso da celebração.
Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos
olhos se encontram, ele se perturba, constrangido -
vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba
sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria minha última crônica: que fosse
pura como esse sorriso.
Parla!:
CERTEZA
Fernando Sabino
De tudo, ficaram três coisas:
A certeza de que ele estava sempre começando...
A certeza de que era preciso continuar...
A certeza de que seria interrompido antes de terminar....
Fazer da interrupção um caminho novo ...
Fazer da queda um passo de dança...
Do medo, uma escada...
Do sonho, uma ponte...
Da procura, um encontro...
Parla!:
HAI-KAIS
Alice Ruiz
apaga a luz
antes de amanhecer
um vagalume
vento seco
entre os bambus
barulho d' água
tanta poesia no gesto
nenhum poema
o diria
o relógio marca
48 horas sem te ver
sei lá quantas para te esquecer
circuluar
sonho impar
acordo par
desacerto
entre nós
só etceteras
Parla!:
DRUMUNDANA
Alice Ruiz
e agora Maria?
o amor acabou
a filha casou
o filho mudou
teu homem foi pra vida
que tudo cria
a fantasia
que você sonhou
apagou
à luz do dia
e a gora Maria?
vai com as outras
vai viver
com a hipocondria
Parla!:
Segunda-feira, Outubro 11
Dikas da Kcau!
Filme fofíssimo
O ESPANTA TUBARÕES
E gostoso livro de Fábio Yabu
PRINCESAS DO MAR
A história é sobre o primeiro dia de aula das princesas.
Nesta data, é revelado às herdeiras um grande
segredo que, obviamente, você não vai ficar sabendo aqui.
A cabecinha da curiosíssima Éster fica cheia de idéias
quando a professora conta o tal segredo.
Ela coloca essas idéias em prática e acaba vivendo
com sua amiga Polvina uma grande aventura.
 
Vamos presentear os pequeninos!
Parla!:
Eu queria
no dia das crianças
postar poesias
que tivessem
a ver com elas...
e qual não foi minha surpresa
quando me deparei
com poesias tão gostosas
desses pequeninos.
Confesso que meu coração
ficou mais leve
ao perceber
que nem tudo está perdido...
Aí vai uma mostra disso!
Parla!:
SOMOS UM
Anderson Rogério Fontanez
9 anos
No jardim do campo nobre
Encontrei apenas jasmim
O jasmim contava a minha vida
porque sofreu igual a mim.
Vivia num canto de pedra
onde demorava a crescer
Também como poderia viver
se estava a ponto de morrer.
O sofrimento assim nos uniu
num grito de solidão
Hoje somos apenas um
esquecidos na imensidão.
Parla!:
VENTO DANADO
João Marcos Paes
6 anos
Vento que balança as tranças
que danado!
Vento que balança as flores
que não pára de se movimentar
que danado!
Vento que apronta palhaçada
que sopra terra na menina
que danado!
Vento que apronta brincadeiras
que sopra o rosto dos meninos
que danado!
Vento que leva o chapéu
Vento que levanta a saia
que danado!
Parla!:
A PINTURA
André Tidei Stortti
10 anos
A pintura
é como a vida, quando
se misturam sentimentos
e a felicidade flui
no nosso coração.
A poesia traz beleza à nossa vida,
o frio cinza se vai e o sol aquece
nossas emoções
Parla!:
OS SAPINHOS CRIANÇAS
Lucas Leonardo Jorge
6 anos
Recife - PE
Era uma vez um sapinho na lagoa.
Estava esquentando no sol
em cima de uma pedra.
Aí vieram vários irmãozinhos e
ficaram em cima um do outro.
Então deu um vento muito forte
que derrubou todos eles.
Cairam na lagoa e sumiram na água.
Depois a mamãe Sapa veio a procura deles,
olhou e nada...
Já estava aflita chorando.
Então os sapinhos pularam da água,
cercaram ela e aí ficaram cantando
na frente dela.
"Pau pé, pau pé, mamãezinha
estamos aqui..."
E todos ficaram felizes para
sempre naquele verão.
Parla!:
INIMIGOS DA NATUREZA
Priscila Pimentel Duarte
13 anos
Vitória-ES
Certa vez perguntei a uma floresta:
O que mais você teme? O que mais detesta?
Ouvi então dela, com muita tristeza:
O homem, o fogo e o machado
São os maiores inimigos da natureza!
Por onde passam derrubam, queimam
Silenciam ruídos, cânticos, pios
Destruindo tocas, esconderijos e ninhos
Matando mamíferos, roedores, passarinhos
Até cursos d'água, cachoeiras...
O barulho de corredeiras
Tudo vira saudade, termina!
Nada escapa a essa sanha assassina
De todos o homem ainda é o mais daninho
De tanto destruir, dias virão em que
À falta do que mais derrubar
Do que mais queimar, represar...
Nada lhe restará por perto
A terra será um imenso deserto
Onde morrerá sozinho
Com fome e sede, sufocado pela tristeza
Sem um único ser vivente
Que lhe dê amparo e carinho
Implorando o perdão da natureza.
Parla!:
O FUTURO DE NOSSO PLANETA
Stefania Rodrigues Broseghini
11 anos
Ibiraçu - ES
O planeta tão bonito com a natureza
Agora já não tem mais beleza.
O céu tão límpido e azul,
já não tem mais norte e sul
A linda flor ao desabrochar,
vê a natureza mais linda ficar.
Agora a linda flor ao sair,
Vê a natureza se descolorir.
A moça ao acordar,
começava a cantar.
Agora a moça ao acordar
Começa a chorar.
A criança que saía para brincar,
Sentia o mundo melhor ficar.
Mas agora a criança não mais quer sair,
e sim de uma triste realidade fugir.
A natureza toda colorida,
sentia-se querida.
Mas agora a natureza ameaçada.
Sente-se toda despedaçada
O céu ao chuviscar,
Faz a terra não secar.
Mas agora o céu não vai mais chuviscar,
E a terra vai secar.
Eu não preciso de olhos para ver,
Nem de mãos para tocar,
Mas preciso do coração para sentir,
Sentir que um dia o mundo pode meslhorar.
O mundo tem solução,
Mas ela tem que vir do seu coração.
Parla!:
Quinta-feira, Outubro 7
SE
(Haroldo de Campos)
se
nasce
morre nasce
morre nasce morre
renasce remorre renasce
remorre renasce
remorre
re
re
desnasce
desmorre desnasce
desmorre desnasce desmorre
nascemorrenasce
morrenasce
morre
se
Parla!:
DAS UTOPIAS
(Mário Quintana)
Se as coisas são inatingíveis... ora!
não é motivo para não quere-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
a magica presença das estrelas!
Parla!:
POSIÇÕES DO CORPO
(Cassiano Ricardo)
Sob o azul
sobre o azul
subazul
subsol
subsolo.
Parla!:
DÁ-ME TUA MÃO
(Clarice Lispector)
Parceria: Antônio Damázio
Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.
De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.
Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.
Parla!:
Durante um tempo
questionei o fato
da Clarice Lispector
intitular-se poeta,
desconsiderando
a regra gramatical...
Aprendi com a Bartira...
É que se corre
o risco de se escrever
poetiza, em vez de poetisa.
Valeu Bartira pelo toque!
Mas acho que de hoje em diante
além vou seguir minha amiga
Clarice, e além do uso
indiscriminado da vírgula,
acabo de virar poeta!
Desculpem a falha leitores...
Pena o blog não ser apenas sonoro.
Amo fonemas!
Beijocas... hehehehe
Parla!:
Sexta-feira, Outubro 1
Parla!:
Galera da boa!
As faculdades Oswaldo Cruz,
(onde essa poetisa leciona...)
está promovendo o prêmio
Mauro Salles de reconhecimento
profissional.
O nome do Prêmio já é um
reconhecimento... Já que
além de um profissional
de competência indiscutível,
Mauro Salles ainda escreve
poesias deliciosas...
No site da faculdade tem um
breve currículo dos candidatos
que têm mais de 20 anos de profissão
e se destacam em suas funções
nas categorias Televisão e Propaganda...
Dá uma olhada e colabore com seu voto!
O Eclipsislitteris agradece!!!
www.oswaldocruz.br/premio
- kcau, 10:19 AM
Parla!:
BRILHO
Mauro Salles
Luzes
luzes
luzes
e luzes
Palavras
palavras
palavras
e luzes
E esse brilho
meu Deus
de que vale?
Parla!:
CONTRASTES
Mauro Salles
05/05/03
Esta alegria embute tristezas
mais profundas e ruidosas
que os altos decibéis
da discoteca
da festa
da música tekno
dos corpos conectados
exibidos
sobre as mesas iluminadas
estroboscópicas
efervecentes
e a fumaça de gelo
que iguala semblantes
esconde gestos
acende desejos
promessas
de encontros
impossíveis
a serem revelados
no após festa
nas madrugadas chuvosas
nos dias cinzentos
nas tardes sem cor
sem música
sem sonho
sem riso
Lá onde a tristeza
inventa disfarces
e esconde a dor
que não pesa mais
Parla!:
EFÊMERO
Mauro Salles
No carro
a música do rádio
abafou palavras sem sentido
A noite era ali
e a chuva miúda
tecia hieróglifos
no pára-brisa
Perto o mar feria pedras milenares
e dava a certeza
monótona
de que tudo é efêmero
Parla!:
PAZ
Mauro Salles
Deixa-me pousar a cabeça
em teu peito descoberto
Divide comigo esta paz
de corpos saciados
Suspiremos juntos
realizando a dádiva
amadurecida
em anos de espera, sofrimento, indecisões
Sorri
que o momento foi bom
E vamos esquecer o mundo
assim
na plenitude da graça
dos que viram a luz
Parla!:
A CORRIDA
Mauro Salles
A pele tocada
e a música
O silêncio ferido
e o sangue
no músculo
O peito arfante
e as mãos e os dedos
e os pêlos
e murmúrios
de palavras não ditas
E a corrida
que só vale a pena
se chegarmos juntos
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