Eclipsis Litteris
 

 
 
Poéticas 
e 
Visuais
 
 
   
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Segunda-feira, Novembro 29

 

VOU TIRAR DO DICIONÁRIO
(Itamar Assumpção e Alice Ruiz)


Vou tirar do dicionário a 
palavra você
Vou trocá-la em miúdos
Mudar meu vocabulário e 
no seu lugar
Vou colocar outro absurdo
Vou tirar suas impressões 
digitais da minha pele
O teu cheiro dos meus lençóis 
o teu rosto do meu gosto
Vou tirar você de letra 
nem que tenha
Que inventar outra gramática
Eu vou tirar você de mim
Assim que eu descobrir 
com quantos não se faz um sim
Vou tirar o sentimento 
do meu pensamento
Sua imagem e semelhança
Vou parar seu movimento 
a qualquer momento
Procurar outra lembrança
Vou tirar vou limar de vez 
sua voz dos meus ouvidos
Vou tirar você e eu de nós 
o dito pelo não dito
Vou tirar você de letra 
nem que tenha que inventar
Outra gramática
Eu vou tirar você de mim
Assim que eu descobrir 
com quantos não se faz um sim...


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VERDADE
(Claudia Garrocini)

Mentimos para nós mesmos
Criamos sonhos e
Alimentamos vãs esperanças
Ocultamos tudo de melhor
E expomos quem não somos
Falamos da vitória que não tivemos
Dos momentos que não vivemos
Estranhos
Ficamos tão perto
Nossos corpos tão próximos
E fizemos nossa história
De bolha de sabão 
Linda, translúcida
Capaz de mostrar
Um brilho de arco-íris...
Frágil
Nossa história explodiu
Ninguém viu
Ninguém entendeu
Você não existia
E eu
Não era eu.


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"Algum dia nossa amizade vai dar um livro. 
E depois um filme (com estréia nacional 
simultânea em 180 salas de cinema), 
uma entrevista no Jô Soares 
(com reapresentação no sábado, 
por inúmeros pedidos), um especial 
de 4 horas de duração na MTV e uma 
centena de reportagens na Globo.
Daí, os jornais sensacionalistas 
vão dizer que o meu casamento 
(após um noivado de 11 anos), 
não vai bem e vou separar-me 
no litigioso. Vai ser a matéria do ano 
na revista Caras. E a Manchete vai voltar 
a circular depois de vender 
3 milhões de revistas explorando o escândalo. 
Então, para escapar das fofocas, 
fujo com você num jatinho fretado para 
uma ilha no Pacífico onde viveremos para 
sempre juntinhos, deitados na rede, 
tomando água de coco e relendo nossas cartas."


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Quinta-feira, Novembro 25

 
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PERDI
SEU OLHAR
SEU FOGO
DENSO
FOGE
LONGE
FRIO
AGORA
PEDAÇO
DE HORA
ETERNOS
MINUTOS
TEIMAM
EM BRINCAR
DE ESTÁTUA.
(Claudia Garrocini)


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Imagino o artista num anfiteatro
Onde o tempo é a grande estrela.
Vejo o tempo obrar a sua arte
Tendo o mesmo artista como tela.

Modelando o artista ao seu feitio,
O tempo, com seu lápis impreciso,
Põe-lhe rugas ao redor da boca
Como contrapeso de um sorriso.

Já vestindo a pele do artista
O tempo arrebata-lhe a garganta.
O velho cantor sobe ao palco.
Apenas abre a voz,e o tempo canta.

Dança o tempo sem cessar, montando
O dorso do exausto bailarino.
Trêmulo, o ator recita um drama
Que ainda está por ser escrito.

No anfiteatro, sob o céu de estrelas
Um concerto eu imagino
Onde, num relance, o tempo alcance a glória
E o artista, o infinito.

Ana Maria Machado

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DESTINO
Claudia Garrocini 

Carro seria
caminhão
se caminhasse
rente à linha tão comprida
palma da tua mão

Renasceria
madrugada
orvalhada
com sorriso bobo
feito denso furacão

Eu não teria
inocência
carestia
se tomasse o rumo certo
do teu coração

Queria mesmo retirar todo teu sangue
te fazer me amar no mangue
feito doce transfusão...

Então o carro
se transformaria
orvalho secaria
ao som dessa canção.

O sol que nasce
aurora desce agora
meu destino segue
ao toque dessa percussão.
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Segunda-feira, Novembro 22

 


A sonoridade 
do trabalho que desenvolvem
músicos boêmios sentimentais...
É o bálsamo dos ouvidos cansados, 
de quem quer companhia
quem quer lembrar de alguém
ou de um dia daqueles com trilha especial...
A música tem o dom
de acalantar a alma...
de embalar o sono dos pequenos
de abrilhantar nossos embalos...
num dia de inverno,
aquece o coração de quem ouve.

Todos os músicos do mundo!
Obrigada!


DISCUTIR MUSICALIDADE

Ouvir o tempo 
O pulsar do momento 
Lento
Ter de novo a sensação 
Ecoando nos ouvidos 
Que o encantamento 
Apenas começou 
Ainda num toque 
Suave e contínuo 
Dos dedos ao violão 
Do espaço e da emoção 
Escutar de repente 
Um som que te leva para casa 
Um tom que não passa 
Uma canção qualquer 
Que toca de leve 
A pele 
O tímpano 
O sentimento. 

(Claudia Garrocini) 

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Tenho sentido
que se de 
alguma maneira
estou viva
é justamente
por acreditar
nos olhos da alma.
Por ter aprendido
depois de
todos esses anos
esperar...
deixar que
as coisas
se encaixassem...

Tenho sentido
que estou 
perto demais
da realização
dos meus sonhos
e o tempo
tem sido generoso
em me deixar
bastante tempo
para passear
de mãos dadas
com você
do outro lado 
do planeta...

Claudia Garrocini

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Tenho ouvido
menos músicas
do que gostaria
Visto menos filmes
Andado menos descalça
Dançado menos
Beijado  menos...

O tempo tem passado mais rápido,
ligeiro demais,
e tudo o que tenho vontade
é de puxar o freio
e te beijar mais
ouvir mais
dançar mais...

Pára o tempo com seu sorriso
me leva para o campo
anda comigo descalço
e vamos ver o nascer do sol
romper nosso interminável beijo!

Claudia Garrocini


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A ARANHA DO MEU DESTINO
10/08/1932 

A aranha do meu destino 
Faz teias de eu não pensar. 
Não soube o que era em menino, 
Sou adulto sem o achar. 
É que a teia, de espalhada 
Apanhou-me o querer ir... 
Sou uma vida baloiçada 
Na consciência de existir. 
A aranha da minha sorte 
Faz teia de muro a muro... 
Sou presa do meu suporte. 

CANÇÃO
01/01/1920 

A lembrada canção, 
Amor, renova agora. 
Na noite, olhos fechados, tua voz 
Dói-me no coração 
Por tudo quanto chora. 
Cantas ao pé de mim, e eu estou a sós. 

Não, a voz não é tua 
Que se ergue e acorda em mim 
Murmúrios de saudade e de inconstância, 
O luar não vem da lua 
Mas do meu ser afim 
Ao mito, à mágoa, à ausência e à distância. 

Não, não é teu o canto 
Que como um astro ao fundo 
Da noite imensa do meu coração 
Chama em vão, chama tanto... 
Quem sou não sei... e o mundo?... 
Renova, amor, a antiga e vã canção. 

Cantas mais que por ti, 
Tua voz é uma ponte 
Por onde passa, inúmero, um segredo 
Que nunca recebi ¿ 
Murmúrio do horizonte, 
Água na noite, morte que vem cedo. 

Assim, cantas sem que existas. 
Ao fim do luar pressinto 
Melhores sonhos que estes da ilusão 

(Fernando Pessoa)
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Domingo, Novembro 21

 

HOJE
André Batera

Hoje completei-me
no sentido do ser e estar
que tanto julgamos
no etéreo das frases
e pouco usamos
na vivência de se ser
e estar realmente felizes.

Hoje me vi em determinados 
momentos sensíveis e sensitivos,
onde a insignificância do lutar em vão
se retraiu e absorto
deixou o brilho se espairecer
por entre as têmporas da vida
e florescer em forma de flores do campo.

E ao me ver,
vi que sou mais do que
vejo que sou quando penso
sobre o que sou...

E, desde então, pareço-me longínquo,
mais real,
um pouquinho menos atacado pela solidão,
vibrando como se tem que vibrar,
vivendo como se tem que viver,
pulsando como se pudesse amar,
amando como se pudesse sobreviver,
soprando como se soubesse soprar,
errando para o poeta sempre escrever...


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Sábado, Novembro 20

 

Denny,
teu aniversário me lembra a primavera de 87
outros tempos...
vc fazia 19 anos...
Hoje, dezoito anos mais tarde,
recorro ao Pessoa para te
parabenizar...
Sucesso!!!

ANIVERSÁRIO

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição 
de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa como 
uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa 
nenhuma,

De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham 
por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter 
esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, perdera 
o sentido da vida.

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui - ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!


O que eu sou hoje é como a umidade no 
corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que 
me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo 
como um fósforo frio...

No tempo em que festejavam o dia 
dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa,
esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar 
ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, 
sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez 
que me cega para o que há aqui...

A mesa posta com mais lugares, 
com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas - 
doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, 
e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado 
roubado na algibeira!...
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

(Álvaro de Campos)
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Quinta-feira, Novembro 18

 

ARTE E INSTINTO 

Se a obra de arte proviesse 
da intenção de fazê-la, 
podia ser produto da vontade. 
Como não provém, só pode ser, 
essencialmente, produto do instinto; 
pois que instinto e vontade 
são as únicas duas qualidades que operam. 
A obra de arte é, portanto, 
uma produção do instinto. 
O drama, sendo primariamente 
uma obra de arte, é-o também. 

Fernando Pessoa, 1916

PREDOMÍNIO DO SENTIDO INTERIOR 

Era eu um poeta estimulado pela filosofia 
e não um filósofo com faculdades poéticas. 
Gostava de admirar a beleza das coisas, 
descobrir no imperceptível, através do diminuto, 
a alma poética do universo. A poesia da terra 
nunca morre. Podemos dizer que as eras passadas 
foram mais poéticas, mas não podemos dizer (...) 
A poesia encontra-se em todas as coisas - 
na terra e no mar, no lago e na margem do rio. 
Encontra-se também na cidade - não o neguemos - 
é evidente para mim, aqui, enquanto estou sentado, 
há poesia nesta mesa, neste papel, neste tinteiro; 
há poesia no barulho dos carros nas ruas, 
em cada movimento diminuto, comum, ridículo, 
de um operário, que do outro lado da rua está 
pintando a tabuleta de um açougue. 
Meu senso íntimo predomina de tal maneira 
sobre meus cinco sentidos que vejo coisas 
nesta vida - acredito-o - de modo diferente 
de outros homens. Há para mim - havia - 
um tesouro de significado numa coisa tão 
ridícula como uma chave, um prego na parede, 
os bigodes de um gato. 
Há para mim uma plenitude de sugestão 
espiritual em uma galinha com seus pintinhos, 
atravessando a rua, com ar pomposo. 
Há para mim um significado mais profundo do 
que as lágrimas humanas no aroma do sândalo, 
nas velhas latas num monturo, numa caixa de 
fósforos caída na sarjeta, em dois papéis 
sujos que, num dia de ventania, rolarão e 
se perseguirão rua abaixo. 
É que a poesia é espanto, admiração, 
como de um ser tombado dos céus, 
a tomar plena consciência de sua queda, 
atônito diante das coisas. Como de alguém 
que conhecesse a alma das coisas, e lutasse 
para recordar esse conhecimento, lembrando-se 
de que não era assim que as conhecia, 
não sob aquelas formas e aquelas condições, 
mas de nada mais se recordando. 
Fernando Pessoa em "O Eu Profundo"1910
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Já senti perigo
cuzar meu olhar
sem poder disfarçar

confusa
um brilho acende sorrindo
verdade que teimo em guardar

tudo parece loucura
água pura que não volta
sentimento renasce
implora sereno
que ouça meu canto
nessa noite sem luar.

Claudia Garrocini
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No espaço sideral
não há lugar pro meu sentimento
Lua sorri no céu, minguante
único instante
me recai num lamento

entrega de um coração cigano
incompreensível
amor latino
peito menino
renasce aurora....

quero um abraço enluarado
prender você
me render
nos fundir.

Ah, se sssoubesse desta existência
poderia devolver meu coração
pr'eu guardar essa vontade.

Claudia Garrocini
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Quarta-feira, Novembro 10

 

Fui aprovada na Qualificação!!!
Tô feliz!

Avenida ponto alto
De onde se vê ao longe
Paisagem urbana estendida
São Paulo esplêndida
Abre a todos que chegam.
Teu largo caminho
De tanto tempo

Que índios esconde Paulista?
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Valeu Carolzinha!

Às vezes construímos 
pequenos sonhos 
em cima de grandes pessoas ... 
O tempo passa 
e descobrimos que grandes 
eram os sonhos, 
e as pessoas pequenas demais 
para torná-los reais ... 

Bob Marley

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Terça-feira, Novembro 9

 

O ritmo da vida está acelerado 
e mesmo quando vão surgindo vários objetos 
para tentar aumentar o nosso tempo 
ele acaba sempre faltando. Nunca o temos.
As nossas experiências vão sendo deixadas 
de lado por uma ou duas coisas que ocupam 
todo o espaço do nosso dia.
O cotidiano nos modela e a rotina 
nos envelhece, faz nos sentir 
que tudo está sem sentido.
Não precisa ter uma brilhante invenção 
para saber o que isso representa. 
Invente um banho novo,  
faça uma sobremesa diferente, 
escove os dentes com a outra mão...
permita-se no universo 
dos sentidos os sentidos.
Sua percepção é multifacetada, 
o ser humano é sinestésico. 
Aproveite o dia inventando 
uma nova maneira de sonhar 
e viver a sua vida..!!!!!!
 
Lícia Pisa
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Ontem o tempo tinha tudo de suave para oferecer aos meus olhos. 
Era notório que sentiria aflorar todo o desejo que há tempo despertaste.
Fico feliz por ter estado fora dali. 
Longe o tempo corre mais leve, 
mais solto e posso pensar em mim mais do que em você. 
Para viver mais o presente do que fantasiar um futuro insólito. 
Ter definida a razão longe da influência do seu olhar que me confunde.

Claudia Garrocini


Parla!:
 

Discutir musicalidade
Ouvir o tempo
O pulsar do momento
Lento
Ter de novo a sensação
Ecoando nos ouvidos
Que o encantamento
Apenas começou

Ainda num toque
Suave e contínuo
Dos dedos ao violão
Do espaço e da emoção

Escutar de repente
Um som que te leva para casa
Um tom que não passa
Uma canção qualquer
Que toca de leve
A pele
O tímpano
O sentimento.

Claudia Garrocini
Parla!:
 

"Quem não tem namorado é alguém que 
tirou férias de si mesmo. 
Namorado é a mais difícil das conquistas. 
Difícil porque namorado de verdade 
é muito raro. Necessita de adivinhação, 
de pele, de saliva, de lágrima, nuvem, 
quindim, brisa ou filosofia. Paquera, 
flerte, caso, transa, envolvimento, 
até paixão é fácil. Mas namorado mesmo, 
é muito difícil. Namorado não precisa 
ser o mais bonito, mas aquele a que se 
quer proteger e quando se chega ao lado 
dele a gente treme, sua frio e quase 
desmaia pedindo proteção. A proteção não 
precisa ser parruda, decidida, ou bandoleira; 
basta um olhar de compreensão ou mesmo aflição. 
Quem não tem namorado não é quem não tem amor: 
é quem não sabe o gosto de namorar. 
Se você tem três pretendentes, dois paqueras, 
um envolvimento, e dois amantes, mesmo assim 
não pode ter namorado. Não tem namorado 
quem não sabe o gosto da chuva, cinema, 
sessão das duas, medo do pai, sanduíche 
de padaria ou drible no trabalho. 
Não tem namorado quem transa sem carinho, 
quem se acaricia sem vontade de virar sorvete 
ou lagartixa e quem ama sem alegria. 
Não tem namorado quem faz pactos de amor 
apenas com a infelicidade. 
Namorar é fazer pactos de amor com a 
felicidade ainda que rápida, escondida, 
fugidia ou impossível de durar. 
Não tem namorado quem não sabe o valor 
de mãos dadas; de carinho escondido 
na hora em que passa o filme; 
de flor catada no muro e entregue de repente, 
de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes 
ou Chico Buarque lida bem devagar; 
de gargalhada quando fala junto ou descobre 
a meia rasgada; de ânsia enorme de viajar junto 
para a Itália ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, 
cavalo alado, tapete mágico ou foguete 
interplanetário. 
Não tem namorado quem não gosta 
de falar do próprio amor, nem de ficar horas 
e horas olhando o mistério do outro 
dentro dos olhos dele, abobalhados 
de alegria pela lucidez do amor. 
Não tem namorado quem não redescobre 
a criança própria e a do amado 
e sai com ela para parques, fliperamas, 
beira d¿água, show do Milton Nascimento, 
bosques enluarados, ruas de sonhos ou 
musical da Metro. 
Não tem namorado quem não tem música 
secreta com ele, quem não dedica livros, 
quem não recorta artigos, quem não escreve poesia. 
Não tem namorado quem ama sem gostar; 
quem gosta sem curtir; quem curte sem 
aprofundar. 
Não tem namorado quem nunca sentiu 
o gosto de ser lembrado de repente 
no fim de semana, na madrugada ou 
meio-dia de sol em plena praia 
cheia de rivais. 
Não tem namorado quem ama sem se dedicar; 
quem namora sem brincar; 
quem vive cheio de obrigações; 
quem faz sexo sem esperar 
o outro ir junto com ele. 
Não tem namorado quem confunde solidão 
com ficar sozinho e em paz. 
Não tem namorado quem não fala sozinho, 
não ri de si mesmo quem tem medo 
de ser afetivo. 
Se você não tem namorado 
porque não descobriu que o amor 
é alegre e você vive pesando duzentos 
quilos de grilo e medo, 
ponha a saia mais leve, 
aquela de chita e passeie 
de mãos dadas com o ar. 
Enfeite-se com margaridas e ternuras 
e escove a alma com leves fricções de esperança. 
De alma escovada e coração estouvado, 
saia do quintal de si mesmo e 
descubra o próprio jardim. 
Acorde com gosto de caqui e 
sorria lírios para quem passe 
debaixo de sua janela. 
Ponha intenções de quermesse 
em seus olhos e beba licor de 
contos de fada. 
Ande como se o chão estivesse 
repleto de sons de flauta 
e do céu descesse uma névoa de 
borboletas, cada qual trazendo 
uma pérola falante a dizer frases 
sutis e palavras de galanteio. 
Se você não tem namorado porque 
ainda não enlouqueceu aquele 
pouquinho necessário a fazer a vida passar 
e de repente parecer que tudo faz sentido: 
"Enlou-creça""
Carlos Drummond de Andrade
Parla!:
 

 

 
   
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