Eclipsis Litteris
 

 
 
Poéticas 
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Segunda-feira, Fevereiro 28

 
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Sexta-feira, Fevereiro 25

 
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A ROSA
Chico Buarque

Arrasa o meu projeto de vida
Querida, estrela do meu caminho
Espinho, cravado em minha garganta, garganta
A santa, às vezes troca meu nome, e some
E some nas altas da madrugada
Coitada, trabalha de plantonista
Artista, é doida pela Portela, oi ela
Oi ela, vestida de verde e rosa, a rosa
A Rosa, garante que é sempre minha
Quietinha, saiu prá comprar cigarro
Que sarro, trouxe umas coisas do norte, que sorte
Que sorte, voltou toda sorridente
Demente, inventa cada carícia
Egípcia, me encontra e me vira a cara
Odara, gravou meu nome na blusa, me acusa
Me acusa, revista os bolsos da calça
A falsa, limpou a minha carteira
Maneira, pagou a nossa despesa
Beleza, na hora do bom se queixa, me deixa
A gueixa, que coisa mais amorosa, a rosa
A Rosa, o meu projeto de vida
Bandida, cadê minha estrela-guia
Vadia, me esquece na noite escura, mas jura
Que um dia volta pra casa.
Arrasa

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Letra para um garotinho francano...

SONHEI QUE VIAJAVA COM VOCÊ
Itamar Assumpção

Sonhei que viajava com você num galeão
Que navegava pelo mar sem medo de tubarão
Para o Oriente, sempre em frente íamos então
Longe da nossa casa, longe do nosso sertão
A sós, a bordo pelos mares, destino Japão
Um baú com samba, caipirinha, com quentão
Pra tocarmos com arroz, karatê, meditação
Pra trocarmos com ninja, tatame, com precisão

Sonhei que viajava com você em um balão
Que flutuava muito acima de um vulcão em erupção
Para o Oriente, vento quente, pés longe do chão
Voava sem ter asas, como a imaginação
Nós dois bem alto, sãos e salvos, rumo ao Japão
Numa sacola mel, laranja, manjericão
Pra trocarmos com saquê, com shoyo, dedicação
Pra trocarmos com judô, ofurô, com decisão

Sonhei que viajava com você num avião
Que deslocava-se quebrando a barreira do som
Para o Oriente, velozmente era a direção
Batia suas asas, a nave total perfeição
Pra ser exato voávamos indo para o Japão
Na mala cuia, carne-seca, farinha e feijão
Pra trocarmos com sushi, com banchá, com devoção
Pra trocarmos com hay-kai, samurai, com vídeo, som

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Quinta-feira, Fevereiro 17

 
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 Da sedução dos anjos
 Bertolt Brecht  

Anjos seduzem-se: nunca ou a matar.
Puxa-o só para dentro de casa e mete-
-Lhe a língua na boca e os dedos sem frete
Por baixo da saia até se molhar
Vira-o contra a parede, ergue-lhe a saia
E fode-o. Se gemer, algo crispado
Segura-o bem, fá-lo vir-se em dobrado
P'ra que do choque no fim te não caia.

Exorta-o a que agite bem o cu
Manda-o tocar-te os guizos atrevido
Diz que ousar na queda lhe é permitido
Desde que entre o céu e a terra flutue ¿

Mas não o olhes na cara enquanto fodes
E as asas, rapaz, não lhas amarrotes.

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Exterior 
Waly Salomão  

Por que a poesia tem que se confinar?
às paredes de dentro da vulva do poema?
Por que proibir à poesia
estourar os limites do grelo
da greta
da gruta
e se espraiar além da grade
do sol nascido quadrado?

Por que a poesia tem que se sustentar
de pé, cartesiana milícia enfileirada,
obediente filha da pauta?
Por que a poesia não pode ficar de quatro
e se agachar e se esgueirar
para gozar
¿ carpe diem! ¿
fora da zona da página?

Por que a poesia de rabo preso
sem poder se operar
e, operada,
polimórfica e perversa,
não pode travestir-se
com os clitóris e balangandãs da lira?


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Blas fêmea 
(Goulart Gomes)

           à minha miragem

Há uma vastidão de desejos
entre os teus seios...

           ...que ira maior poderia haver
           que o varrer dos meus dentes
           no teu ventre?

           E me deixar 
           sumir em teus abismos
           Nem os braços abertos de um cristo
           tanto fariam.

Iludiriam mesmo a alma
do mais crente dos homens

(não são para mim, demasiado humano)

mortal demais,
           insano
indigno dos teus lençóis.



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Quinta-feira, Fevereiro 10

 

SER ORIGINAL
Amilcar de Castro

Ser original não é ser diferente
Mas é reconhecer a sua origem
E como é simples esse caminho
Porque espontâneo e livre
Único e possível
plenitude e realização.
Descobrir-se e caminhar
Na identidade interior
Como um rio em seu leito
guarda sempre a certeza
que seu destino é o mar.



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Um desabafo concretista
de Augusto de Campos
Traduz minha luta
Com a finalização do texto
que nada tem de concreto...
  
olho por olho
1964


 

 
   
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